The Mountain Goats - Days

Falar dos The Mountain Goats, banda natural de Claremont, na Califórnia, mas atualmente sedeada em Durham, na Carolina do Norte, é quase como fazer referência a uma hipotética carreira a solo de John Darnielle já que é ele a principal mente criativa e grande indutor sonoro e lírico deste grupo. Também escritor, ficou famoso nessa vertente com o livro Wolf In The Van, que lançou em dois mil e catorze e que tinha um enredo que girava em redor de um recluso de rosto desfigurado e criador de jogos informáticos, que acabou também por inspirar, de certo modo, o disco Beat The Champ, que chamou a atenção da nossa redação em dois mil e quinze.

pic by Alan Velasco

Agora, mais de uma década depois, os The Mountain Goats estão de regresso ao nosso radar à boleia de Days, um álbum com doze canções, com a chancela da própria etiqueta da banda, a Cadmean Dawn Label. É o vigésimo quarto alinhamento da carreira do grupo, foi gravado nos estúdios Sear Sound, em Manhattan, Nova Iorque, com a ajuda do produtor John Congleton e conta com as participações especiais de Rob Jost, Catherine Russell, Janis Siegal e Jamie e Carolyn Leonhart, nas vozes.

Como é norma num disco dos The Mountain Goats, existe sempre por trás do seu conteúdo uma ideia, ou um conceito que o inspira e o universo cinematográfico é, amiúde, um manancial inspirador para Darnielle. Days não foge a essa ideia, algo audível no tema Charlie Sheen Reaches Out To The Feds, canção inspirada na experiência pessoal que Carlie Sheen teve em mil novecentos e noventa e dois quando viu o filme japonês de terror Guinea Pig 2: Flower Of Flesh And Blood, uma situação que deixou este conhecido ator particularmente perturbado ao ponto de ter contactado o FBI porque acreditava que realmente tinha visto as filmagens de uma mulher a ser assassinada na vida real. Charlie Sheen Reaches Out To The Feds é uma angulosa e vibrante canção, que debita um punk rock vibrante, pulsante e impulsivo, acamado por um baixo e uma bateria em simbiose perfeita, com as guitarras a entornarem distorções sujas e abrasivas e o trompete a cirandar constantemente, criando um clima rugoso e até algo hipnótico, mas que sacia e satisfaz. E esta composição é destacada já, porque acaba por ser uma porta de entrada perfeita para a sonoridade que sustenta grande parte do alinhamento de Days.

No entanto, o registo não vive só de decibéis estridentes. Shallow Grave, a terceira canção da sequência do álbum, aposta num clima sonoro menos rugoso e eletrificado do que Charlie Sheen Reaches Out To The Feds, impressionando pela luminosidade das cordas e pela bateria exemplarmente arritmada, com um insinuante piano, com um indisfarçável travo blues, a ser o remate perfeito de um extraordinário tratado de indie folk rock, com aquele travo tipicamente americano. Depois, também amplifica a versatilidade da habitual marca identitária sonora dos The Mountain Goats, a composição Candlebox, uma ode a uma banda com o mesmo nome, natural de Seattle, que fez furor no auge do movimento grunge, há cerca de quatro décadas, quando lançou um disco homónimo. Vigorosa, intuitiva e encharcada em guitarras vibrantes e plenas de fuzz no refrão, intercaladas com curiosos entalhes percussivos, Candlebox faz jus à época referida, outra das grandes inspirações de Days, contendo um travo nostálgico e vintage inconfundível.

Pelo meio, num disco exemplarmente produzido e cheio de letras comoventes e profundas, mesmo mantendo-se aquele registo declamativo que é uma das imagens de marca de Darnielle, merece audição dedicada a acusticidade crepitante de Song For Layne Staley, tema que mantem a bitola no universo grunge, e em que além da viola, também sobressai a bateria de Jon Wurster e o baixo de Rob Jost. É uma canção curta, mas há toda uma vida dentro dela, já que descreve um pouco da vida de Staley, o falecido vocalista dos Alice in Chains, desde o tédio da sua juventude até ao sucesso mainstream e à decadência, atingindo o seu clímax com a ajuda dessa instrumentação precisa, mas também de uma construção épica. A exuberância de Woodstock '99 também impressiona, pela sensibilidade do piano e pelo travo nostálgico e reflexivo de uma canção que ironiza sobre as consequências e as crueldades do sucesso comercial.

Num disco cheio de referências explícitas a nomes conhecidos, artistas e filmes, Days tem um lado radiofónico indesmentível, mas também impressiona pela subtileza experimental e pela excentricidade de alguns dos seus melhores momentos. O registo parece carregar uma sabedoria escondida algo paternal, que não compreendemos muito bem, mas que acreditamos que faz sentido, até porque as tramas que contém escorrem da suave boca de um excelente contador de histórias que se abriga à sombra de uma folk cheia de fórmulas e histórias maravilhosas e que experimenta diferentes estilos, enquanto nos oferece a sua visão sobre o mundo e o modo como o entende, sem se preocupar com o julgamento do ouvinte sobre as suas opiniões acerca da singularidade da sua visão. Espero que aprecies a sugestão...

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