Trinta anos depois do registo de estreia This Is A Long Drive For Someone With Nothing To Think About, os norte-americanos Modest Mouse do guitarrista Isaac Brock, estão de regresso aos discos em dois mil e vinte e seis com An Eraser And A Maze, um faustoso alinhamento de quinze canções produzidas pelo próprio Isaac Brock, com a ajuda de Jacknife Lee, Suzy Shinn e Justin Raisen. An Eraser And A Maze viu a luz do dia com a chancela da Glacial Pace, etiqueta detida por Isaac Brock, sendo o primeiro lançamento dos Modest Mouse numa editora indie independente deste o registo The Lonesome Crowded West, lançado em mil novecentos e noventa e sete, depois de vários anos ligados à Epic Recordings.
pic by Ben Moon
An Eraser And A Maze, o oitavo álbum dos Modest Mouse, é um registo muito marcado pela ideia da morte, em claro contraste com The Golden Casket, o disco antecessor, minuciosamente dissecado por esta redação em dois mil e vinte e um e que, conseguindo equilibrar-se num perigoso limbo entre territórios acessíveis e orelhudos e uma destreza criativa que busca o inédito, assentava num perfil interpretativo bastante mais otimista e luminoso.
Dezoito meses depois do lançamento de The Golden Casket, Jeremiah Green, o baterista e membro fundador da banda de Portland, no Oregon, deixou de estar entre nós, apenas com quarenta e cinco anos, depois de uma batalha inglória contra o cancro, facto que marcou profundamente Brock, já que, além do companheiro de equipa, também perdeu um dos seus grandes amigos. Third Side of The Moon, uma das grandes canções deste disco, reflete sobre aquilo que é a realidade e a tendência natural que todos temos para muitas vezes procurarmos justificações para determinadas situações ou eventos da nossa vida, no impossível e no irreal, mas também é explicita no modo como serve para Brock exorcizar a perda de Green (I wish I’d paid attention to every word that you’d ever said). A composição, que contém uma tonalidade climática orgânica intensa, com um baixo robusto e uma bateria contundente a acamarem um teclado enleante e guitarras que vão debitando distorções e efeitos, amiúde incontrolados, num registo sempre crescente, em termos de emoção e contemplação, que tem o seu apogeu num final intenso e imponente, fala também de Sam Jayne, antigo membro da banda, que também faleceu, mas em dois mil e vinte.
Embora Brock seja agora o único membro original dos Modest Mouse, An Eraser and a Maze remete claramente para os primeiros trabalhos do projeto. Percebemos isso logo em Picking Dragons’ Pockets, o tema que abre o alinhamento de An Eraser And A Maze, uma canção com um perfil elétrico orgânico robusto, assente em guitarras abrasivas, uma bateria imponente e um ritmo amiúde frenético, cimentado com diversos efeitos percussivos, das mais variadas proveniências e também por alguns entalhes sintéticos. Mas isso reflete-se, não só na constância da presença da guitarra distorcida, mas também nas letras melancólicas e desconexas e no niilismo avassalador agreste de temas como Song About Nothing. Mesmo que durante a audição do álbum sobressaia um certo caos, certamente intencional, de modo a induzir ao alinhamento um travo pop psicadélico imponente, é notório o modo claro e coeso como o disco flui, mesmo que seja tocado por três bateristas e esteja encharcado com as tais guitarras estridentes. E isso acontece porque também não faltam momentos acústicos minimalistas, com especial destaque para Remember Yourself, ou então alguns temas com um perfil experimental ímpar, nomeadamente a dançante Absolutely Necessary Never, uma canção com um groove irresistível e Stoner Party, um instante sonoro que procura replicar o canto de um marinheiro alcoolicamente bem disposto.
Se The Golden Casket mostrou aos seguidores dos Modest Mouse que esta banda continuava justificadamente à tona no universo dos projetos mais relevantes e criativos do universo sonoro em que se movimenta, An Eraser And A Maze, sendo uma espécie de outra face da mesma moeda, amplifica ainda mais a justiça dos elogios que se possa fazer a este projeto relativamente à sua capacidade de se reinventar, mesmo no meio do caos pessoal e das dores com que os seus membros têm lidado. De facto, mesmo no meio da perplexidade que certamente se instalou no seu âmago nestes anos mais recentes em que o mundo pareceu, para ele, girar ao contrário, Brock evoca vislumbres de luz, conforme nos mostra, com incrível clareza, em Dogbed In Heaven (Things get gnarly then they drift back to sane. It’s not a science or a founded claim. It is just a hope). Espero que aprecies a sugestão...

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