Death Cab For Cutie - I Built You A Tower

Chegou hoje mesmo aos escaparates I Built You A Tower, o décimo primeiro registo de originais dos Death Cab For Cutie, banda que ao longo de quase duas décadas de vida de Man On The Moon, vai conseguindo conquistar, sorrateiramente, o coração sempre exigente da nossa redação.  Disco após disco, desde que passaram por cá a primeira vez em julho de dois mil e onze com Codes And Keys, este coletivo dos arredores de Washington parece não nos oferecer, no imediato, algo com que o ouvido se regozije instantaneamente e que, além disso, trespasse o âmago com fervor, mas é um facto que desde que lhes seja dedicada merecida audição, algo que fazemos questão de intentar, acabam por ser como aqueles namorados que nos conquistam irremediavelmente com o tempo, porque as melhores relações não são, diga-se em abono da verdade, aquelas que se conectam, com mais ou menos fervor, à primeira vista.

Formados atualmente por Benjamin Gibbard, Nicholas Harmer, Jason McGerr, Dave Depper e Zac Rae, os Death Cab For Cutie, contaram com a ajuda imprescindível de John Congleton na produção e mistura de I Built You A Tower, um disco que tem a chancela da editora independente ANTI- Records, uma espécie de regresso às origens após uma ligação de quase vinte anos à multinacional Atlantic Records. I Built You A Tower é também já um disco marcante na carreira dos Death Cab For Cutie, porque está muito marcado pelo divórcio recente de Ben Gibbard que, talvez conscientemente, serviu-se, no bom sentido, do processo de incubação do alinhamento para exorcizar demónios pessoais e conseguir seguir em frente.  O disco aborda a perda, a compartimentação emocional e o momento em que o luto transborda inevitavelmente. É também um retrato do crescimento que surge depois da queda, do reconhecimento da dor sem permitir que ela destrua tudo.

John Congleton, um discípulo de Steve Albini, foi preponderante para a sonoridade robusta e visceral de I Built You A Tower, um disco gravado em apenas três semanas nos estúdios Animal Rites, em Los Angeles. Se Full Of Stars abre as hostilidades de um modo eminentemente acústico e imersivo, como se fosse uma espécie de acordar, reforçado pela consequente tomada de consciência de uma realidade complexa, logo em Punching The Flowers, canção que disserta, de acordo com o próprio Ben Gibbard, sobre a sensação de se estar aprisionado pelo conhecido e como tentativa de saída dessa espécie de zona de conforto, pode causar danos irreparáveis, percebemos o dedo de Congleton, no modo como o baixo e a bateria coabitam em simbiose perfeita, secundadas por um teclado discreto, mas melodicamente sagaz. Depois, as guitarras também debitam distorções sujas e abrasivas, mas o clima é cru e imediato, com a já referida bateria, arritmada, a encetar um jogo de parada e resposta com o baixo, sendo ambos o grande motor de uma canção frenética e com um curioso travo grunge, servido em bandeja de ouro com particular astúcia.

Logo a seguir, a rara tonalidade soul contagiante de Pep Talk, volta a afagar o ouvido, que se mantém firme no modo como absorve com gosto o melancólico tema homónimo, composição que amplifica o espírito intemporal e eclético que o disco exala. Logo a seguir, a imponente crueza de Envy The Birds e o rock estridente de How Heavenly a State, injetam novamente um espírito agreste e angustiante, que serve os propósitos de um Gibbard, curiosamente confiante e seguro e os nossos, porque a música é sempre o nosso maior escape nos momentos de dor e incerteza.

Riptides, canção que versa sobre a nossa necessidade constante que sentimos de resolver os dilemas pessoais que nos afligem e, ao mesmo tempo, termos de lidar com a inevitável angústia que os problemas mundiais nos criam, sendo, em suma, uma reflexão sobre o peso do mundo e de nós próprios que, conjugados, nos podem levar a uma espécie de paralisia emocional, acaba por ser uma espécie de clímax de um registo que, no seu todo, acaba por ser o trabalho mais pesado do catálogo dos Death Cab For Cutie, mas também um forte lembrete dos motivos porque esta banda tocou tantos corações ao longo das últimas três décadas, recusando-se ainda a acomodar-se no seu legado, à boleia deste lampejo criativo e libertador que dá frutos em abundância. Espero que aprecies a sugestão...

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