Quatro anos depois de (watch my moves), o oitavo disco da carreira, Kurt Vile e dos EPs Back To Moon Beach, lançado em dois mil e vinte e três e Classic Love, um alinhamento de cinco canções que contou com a participação especial de Luke Roberts, um cantor e compositor também norte-americano, mas natural de Nashville, Kurt Vile, músico que descende da melhor escola indie rock norte americana e que adora piscar o olho à superior herança da folk nativa do outro lado do atlântico, quer através da forma como canta, quer nos trilhos sónicos da guitarra elétrica que abraça há duas décadas, sempre com elevado requinte, está de regresso ao formato longa duração com Philadelphia’s Been Good To Me, um alinhamento de doze canções que tem a chancela da Verve Recordings.
Philadelphia's Been Good To Me é, de acordo com o próprio Kurt Vile, uma espécie de regresso às origens, já que foi integralmente gravado no estúdio caseiro do autor, em Lansdowne, na Pensilvânia, resultando no trabalho mais orgânico, elétrico e vocalmente feliz, da carreira do artista, de acordo com o próprio.
De facto, logo em Zoom 97, o tema que abre o disco, percebe-se que é a guitarra elétrica dedilhada com ímpar vibração e tempero blues folk, o grande eixo condutor do processo de criação melódica e estilística do registo. Zoom 97 impressiona pelo perfil seguro e comprometido das cordas, que se vão deixando enlear por uma vastidão de arranjos e detalhes e nuances das mais diversas proveniências, que adornam, com um charme intenso, uma simbiose quase hipnótica entre melancolia e experimentalismo, caraterísticas que o timbre vocal único de Vile amplifica com mestria.
A seguir, sempre com a guitarra em riste, em 99 BPM, uma espécie de blues em formato jam session e em Rock o'Stone, um tema que sabe a uma espécie de rascunho deambulante, que foi embelezado e esculpido com inegável mestria, porque, sendo melodicamente simples e repetitivo, está impecavelmente adornado, percebemos que Kurt Vile deixou as canções espraiarem-se no seu próprio tempo, sem amarras e que, além disso, existe um elevado perfil intuitivo na elaboração das mesmas. É uma espécie de despreocupação consciente, como se o álbum fosse uma espécie de registo vivo e contundente do modo de estar e do dia-a-dia do músico em estúdio e em casa. A temática das canções também tem muito esse cariz íntimo e auto confessional, com o perfil declamativo de Vile a amplificar ainda mais esta dinâmica de portas abertas.
Philadelphia’s Been Good To Me prossegue e se a limpidez da distorção das cordas de you don't know cuz it's my life, um dos melhores temas do disco, nos oferece uma curiosa tonalidade pop, que afaga o espírito e alimenta o sorriso espontâneo, já Chance To Bleed, uma canção melodicamente inspirada, não deixa o nosso ouvido sentir-se de algum modo adormecido pelo contínuo travo narcótico das canções, porque sobressai pelo modo inspirado como é conduzida por uma guitarra impactante e com um travo experimental bastante seguro, exemplarmente acompanhada pela bateria, aqui sentimentalmente forte e repleta de nuances e mudanças de tonalidade. Depois, o domínio exercido pelos sintetizadores na lisérgica Philly's Been Good To Me, a arritmada e desajeitadamente charmosa Holiday OKV e a intensa fluidez de 99th Song, uma canção que nunca se perde no tempo e que, num misto de recolhimento folk e majestosidade psicadélica, condensa, de algum modo, o âmago conceptual sonoro e lírico do disco, enquanto nela, Vile nos explica ser, de facto, a sua nonagésima nona criação, são outros momentos altos de um registo que tem como um dos seus maiores atributos o seu perfil enganadoramente descomprometido.
Philadelphia’s Been Good To Me oferece-nos, em suma, um verdadeiro oásis sonoro, criado com astúcia e serenidade, por um músico ímpar no panorama indie e alternativo atual, devendo ser analisado não só à luz da sua especificidade estilística, mas também pelo modo como entronca numa filosofia de autodescoberta, que é uma das marcas incontornáveis do processo de criação deste artista norte-americano. Espero que aprecies a sugestão...

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