Um dos grandes discos de dois mil e vinte e três tinha a assinatura de Kevin Morby e chamava-se This Is A Photograph. Quase um ano depois do lançamento de This Is A Photograph, Kevin Morby aprimorou o alinhamento desse álbum com More Photographs (A Continuum), um complemento àquele que foi, na altura, o sétimo disco da carreira do autor. Essa segunda parte da saga This Is A Photograph continha três versões de canções do disco e seis originais que ficaram de fora do alinhamento desse álbum e ela aconteceu porque Morby achava que não conseguia avançar artisticamente para um novo trabalho e, ao mesmo tempo, deixar para trás essas canções que, de acordo com o próprio, apenas caberiam naquela que foi a conceção filosófica de um disco de memórias e de exorcização, já que era bastante inspirado numa coleção de fotografias que estavam guardadas na casa onde Morby cresceu e que o artista começou a vasculhar na mesma noite em que o pai faleceu ao jantar.
Pic by Chantal Anderson
Agora, cerca de três anos depois desse capítulo discográfico ímpar na carreira do artista, Kevin Morby está de regresso à ribalta com Little Wide Open, o oitavo e novo álbum do artista texano, que tem a chancela da Dead Oceans. É um álbum com um faustoso alinhamento de treze canções e que conta nos seus créditos com a participação especial de vários nomes de relevo, nomeadamente Justin Vernon, Aaron Dessner, Katie Gavin, Mat Davidson, Meg Duffy, Oliver Hill, Rachel Baiman, Stuart Bogie, Tim e Andrew Barr, Benjamin Lanz, Colin Croom, Tom Moth e Lucinda Williams.
Kevin Morby é, neste momento, a principal bússola da melhor indie folk norte-americana, que contém todos os ingredientes típicos de um estilo sonoro único. E essa evidência é reforçada neste seu novo disco, com uma astúcia e um requinte enormes, porque Little Wide Open é a personificação sonora exemplar de uma América profunda. Logo em Badlands, a abrir o disco, um tema que conta com a participação especial de Justin Vernon e Amelia Meath, encontramos uma reflexão íntima sobre o quotidiano daquela América profunda conservadora, o chamado midwest, sendo-nos oferecida a visão do autor sobre a iconografia típica da mesma, que tem na expressão Badlands um dos seus expoentes. Depois, logo a seguir, em Die Young, o banjo, as guitarras acústicas e elétricas dedilhadas em camadas e com astúcia e os violinos de Mat Davidson (Big Thief, Adrianne Lenker) sustentam uma verdadeira carta de amor que Morby dedica aos seus habituais companheiros de estrada e a Katie Crutchfield, a vocalista do projeto Waxahatchee e a sua atual companheira.
Percebemos, muito cedo, apenas com duas canções, que Little Wide Open tem uma áurea especial e que será, daqui a uns tempos, considerado um verdadeiro clássico dentro do espetro sonoro em que se movimenta. Javelin, uma canção intensa, divertida até com uma amplitude melódica e rítmica muito vincada, é uma composição cheia de luz, cor e otimismo e que celebra a alegria, mesmo que se viva só em plena América profunda. Com cordas reluzentes, uma vasta pafernália de arranjos percussivos e num clima sempre crescente e efusivo, Javelin é uma verdadeira ode à vida e à existência plena, algo que o clima mais contemplativo de Little Wide Open, o tema homónimo, também reflete, enquanto reflete sobre a vasta pafernália de contradições a que está sujeito quem vive num país cada vez mais refém de um sedento capitalismo, mas que ainda consegue manter em algumas zonas mais rurais, principalmente no sul, em estados como o Kentucky, o Texas, o Arkansas, a Georgia ou o Alabama, profundas marcas identitárias de uma ancestralidade que é hoje parte importante da definição daquilo que é ser-se verdadeiramente americano.
O disco prossegue e na viola reluzente de All Sinners, enquanto constatamos, uma vez mais, que Kevin Morby tem uma saudável obsessão pela espiritualidade e pela mortalidade, também percebemos que ele é hoje alguém que se sente feliz e amado, mesmo que esteja consciente de que o fim é uma inevitabilidade, quer para ele, quer para os gatos com nove vidas, ou outro ser vivo qualquer que habita neste mundo. É um equilíbrio entre o pessoal e o universal que se acentua em Natural Disaster, uma canção que reluz pela simplicidade, quer melódica, quer instrumental, mostrando-nos que quanto maior é a emotividade que Morby coloca nas suas canções, mais refinado e convidativo ele nos soa. 100,000 também contém esse encanto quase pueril, com cordas e voz a conquistarem o nosso âmago, sem artifícios desnecessários, ou uma artilharia instrumental demasiado intrincada, mesmo que depois ela seja eletrificada com uma certa tonalidade progressiva e psicadélica, uma aposta de risco que resultou em pleno.
Little Wide Open é, em suma, o registo mais coeso, melodioso e empolgante da carreira de Kevin Morby. Está enraizado, de alto a baixo, com belíssimas odes à celebração da vida e à possibilidade que ela nos oferece, diariamente, de a podermos simplificar, para melhor a saborear. Enquanto isso, o disco prova que este artista está, sem dúvida nenhuma, na melhor fase da sua carreira, à medida que mistura com fino recorte folk, blues, rock e country, ou seja, aquilo que é, por definição, a força da música americana mais pura e genuína. Espero que aprecies a sugestão...

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