The Monochrome Set - Lotus Bridge

Já com um percurso de cinco décadas, os The Monochrome Set liderados pelo cantor de origem indiana Bid (pseudónimo de Ganesh Seshadri), ao qual se juntam, atualmente, o guitarrista Alice Healey, o baixista Andy Warren, o baterista Stephen Gilchrist e o teclista Athen Ayren, são uma das bandas mais subestimadas da história da música britânica. Nasceram nos início dos anos setenta do século passado e começaram a ganhar fama no final da era punk, optando, sonoramente, por uma vertente eminentemente arty dentro daquele rock de cariz mais nostálgico e sombrio. O nome do grupo inspira-se nas pinturas monocromáticas de Yves Klein e alguns dos títulos das suas músicas mais emblemáticas, como Alphaville e Eine Symphonie des Grauens, sugerem uma ligação a grandes obras primas de Jean-Luc Godard e F. W. Murnau. Em mil novecentos e setenta e nove lançaram uma série de singles pela Rough Trade que são agora peças de colecionador, seguidos pelas primeiras obras primas, Strange Boutique e Love Zombies, ambos lançados em mil novecentos e oitenta. Três anos depois mudaram para a Cherryl Red Records onde lançaram Eligible Bachelors, em mil novecentos e oitenta e dois e The Lost Weekend, três anos depois.

Décadas depois editaram uma súmula desse período intitulada 1979 – 1985: Complete Recordings, o documento perfeito do capítulo inicial da história dos The Monochrome Set, que teve sequência com mais quatro discos na década de noventa e outros dois já no novo século. Juntamente com essa súmula, o trio editou também à boleia da Tapete Records, um registo de originais intitulado Maisieworld, sucessor de Platinum Coils (2012) e Super Plastic City (2013), assim como Fabula Mendax, em dois mil e dezanove, um disco que tem finamente sucessor.

O novo longa duração dos The Monochrome Set intitula-se Lotus Bridge e, em dez majestosas canções, gravadas no estúdios OneCat Studio em Londres, com o técnico de Jon Clayton e produzidas por Jon Clayton e pelo próprio Bid, oferece ao ouvinte uma viagem psicadélica ao rico e fantástico mundo onírico do autor. Baseado num sonho singular que se reapresentou após um hiato de oito meses, precisamente quando chegava a altura de voltar a gravar, Bid narra com detalhes vívidos a miríade de personagens e cenários que surgiram no seu sonho e inspiraram o desenvolvimento deste novo conjunto de histórias.

Este conceito filosófico de Lotus Bridge ganha vida através do som inconfundível dos The Monochrome Set, feito de uma sonoridade subtil e algo diferente dos álbuns anteriores do grupo. O uso predominante é o piano elétrico e a guitarra acústica, com guitarras elétricas frequentemente em estéreo amplo, resultando numa atmosfera geral muito focada e quase orquestral. Há também sons ambientes entre muitas das músicas, o que faz com que o álbum como um todo pareça coeso. Depois, as letras continuam a conter aquele humor ácido diferenciado que carateriza esta banda, sem colocar em causa a temática do registo. 

Assim, na exuberância das cordas que sustentam o buliçoso tema homónimo, na luminosidade folk da smithiana Polaris Aa, na solenidade pop dos arranjos de cordas da orquestral Diaphanous, no andamento frenético da buliçosa Athanatoi ou na festiva Jenny Greenlocks, escutamos os The Monochrome Set na sua forma mais ornamentada e excêntrica, num disco que comprava a sagacidade cerebral e o perfil criativo elegante de Bid, mestre na criação de melodias contagiantes e hábil, como poucos, na construção de canções com elevada qualidade cinematográfica e literária. Espero que aprecies a sugestão...

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