Matt Corby - Tragic Magic

Há pouco mais de uma década, no meio da interminável vaga de novos artistas que iam surgindo todos os dias e que foram consolidando os alicerces de um blogue já numa fase de afirmação consistente da sua existência, houve alguns autores que, nesse inesquecível ano de dois mil e doze, acabaram por ficar na retina da nossa redação. Um deles foi o australiano Matt Corby, músico cujo primeiro single, Brother, editado no verão desse ano e grande destaque de um EP intitulado Into The Flame, soou do lado de cá como um daqueles singles revelação e que fez querer descobrir, na altura, toda a obra que esse artista já tinha lançado.

pic by Maclay Heriot

Entretanto, há quase três anos, na alvorada da primavera de dois mil e vinte e três, e depois de no final de dois mil e vinte e quatro termos divulgado um single intitulado Problems, Matt Corby voltou aos nossos radares, também pouco mais de dois anos depois de um par de canções chamadas If I Never Say a Word e Vitamin, que o músico lançou em dois mil e vinte. E fê-lo à boleia de um disco intitulado Everything's Fine, o terceiro da sua carreira, um alinhamento de onze canções gravado nos Rainbow Valley Studios com Chris Collins e que foi cuidadosamente dissecado pela nossa redação.

Agora, Matt Corby mostra finalmente ao mundo o sucessor de Everything's Fine. Trata-se de um trabalho intitulado Tragic Magic. É um registo com treze canções, que resultou de dezoito meses de árduo trabalho de composição e gravação em estúdio e que foi produzido também por Chris Collins, seu habitual colaborador, com a ajuda de Nat Dunn.

É já um facto admitido pelo próprio que, ao entrar em estúdio para gravar, Corby leva sempre as emoções à flor da pele, assim como as incertezas quanto ao seu futuro pessoal, interpretando e criando música afundado numa espécie de panela de pressão psicológica, uma tensão permanente que acaba, obviamente, por ficar plasmada em canções que se debruçam, no geral, sobre as coisas boas e menos boas da vida de qualquer ser humano. Tragic Magic não foge a esse habitual modus operandi conceptual deste músico australiano, sendo, dentro dessa condição prévia, o registo mais intuitivo da carreira do músico. As canções são imediatas, incisivas e diretas, não só relativamente à mensagem, mas também no estilo.

Logo em King Of Denial, uma linha sintetizada plena de groove, sustentada por uma bateria jazzística arritmada e diversos entalhes planantes, mostra-nos a coerência e o sentido estético de forte pendor pop de quarenta e sete minutos plenos de charme e de contemporaneidade. Is It Healthy mantém o perfil, mas numa toada mais nostálgica e contemplativa, mas agora é uma guitarra com um efeito metálico insinuante, quem assume as rédeas. Pouco depois, em Know It All, é um piano intrincado, buliçoso e tocante que se chega à frente e se assume como grande trave mestra. As suas teclas trocam com o timbre adocicado vocal ligeiramente reverberado de Corby, um emaranhado de subtilezas, olhares e toques, aparecendo a bateria e uma secção de cordas a dois minutos do fim, com o intuito de ampliar o perfil tocante e sensitivo de Know It All. Antes disso, Big Ideas, mais um dos momentos altos do alinhamento de Tragic Magic, proporciona-nos um olhar mais anguloso e sensual, que se saúda, como é óbvio, relativamente à estética do registo. É uma canção com um perfil percussivo bastante vincado, assente num vigoroso baixo e em alguns entalhes orgânicos, muitas vezes quase impercetíveis. Depois, é também imperdível a escuta de Burn It Down, uma composição repleta de soul, com um groove e uma luminosidade ímpares, que também se encontram em Long And Short, uma balada profundamente intimista e tocante.

War To Love, uma composição instrumentalmente rica, burilada com detalhe e com um toque classicista ímpar, faz, de certo modo, a súmula perfeita de um disco charmoso, intimista e intenso, que encarna, então, uma jornada espiritual dura, mas feita com otimismo e luminosidade, se tivermos em conta o seu conteúdo, que plasma alguns dos melhores atributos de um artista inovador e bastante criativo e que, no modo como agrega, burila e mistura o orgânico e o sintético, mostra uma saudável e sedutora faceta marcadamente contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...

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