Três anos depois do excelente disco Continue As A Guest, os canadianos The New Pornographers, formados atualmente por Carl Newman, Kathryn Calder, Neko Case, John Collins, Todd Fancey e Charley Drayton, estão de regresso ao formato longa duração, com o seu décimo disco da carreira. É um alinhamento de dez canções intitulado The Former Site Of, um álbum que tem a chancela da Merge Recordings.
Há discos que têm o firme propósito de, mais do que oferecer ao ouvinte tratados sonoros que suscitem sensações e emoções durante a sua audição, procuram também contar histórias, como se fossem uma narrativa, ou uma súmula de várias. The Former Site Of tem esse objetivo em declarado ponto de mira, porque cada um dos seus dez temas procura contar uma pequena história centrada em personagens que experimentam sensações e vivências extremas e, de certo modo, extraordinárias. E tal é feito através de um balanço meticuloso entre majestosidade e intimismo, enquanto a banda nos oferece aquele que é talvez o cardápio de nuances e arranjos instrumentais mais diversificado e inspirado da sua já longa discografia.
De facto, The Former Site Of é um daqueles discos que merece escuta atenta e devota. Deixá-lo escorrer livremente pelos nossos ouvidos é encontrar, em cada esquina sonora, um detalhe, que pode ser uma tecla, uma corda, ou uma batida, que terá tanto de inesperado, como de inspirado. Portanto, parece-nos óbvio constatar que o disco foi incubado através de um processo criativo refinado e meticulosamente calculado, algo só ao alcance de músicos verdadeiramente predestinados e, mais do que isso, que vivem em perfeita comunhão, no modo como aceitam agregar, entre si, gostos, preferências e, principalmente, a superior capacidade performativa de cada um, quer instrumental, quer vocal, até porque este registo também encontra muito da sua alma e do seu vigor no extraordinário jogo vocal que Carl Newman e Neko Case estabelecem constantemente entre si.
As músicas de The Former Site Of têm sempre um início centrado numa temática emocional simples e minimalista, que depois se desenvolve, quer no poema, quer na sonoridade, para uma cadeia complexa de interações, em que cada músico dá o peito às balas, mostrando o seu próprio ímpeto, de acordo com o propósito filosófico da canção. O resultado é uma coleção de canções que soam sempre orquestralmente ricas e generosas, com a vantagem adicional de permitirem que cada uma das suas texturas respire livremente, assim como a narrativa que a sustenta.
Em suma, seja na ode ao último telefone convencional pago de Nova Iorque, recentemente desmantelado, em Ballad Of The Last Payphone, feita com um vasto arsenal instrumental, que encontra sustento numa bateria bem marcada exemplarmente acompanhada por um baixo discreto, mas eficiente, seja na imponência e no vigor de Votive, uma canção, com têmpora e alma, seja no verdadeiro tratado de power pop chamado Pure Sticker Shock, uma composição com um perfil algo minimalista, mas que seduz pelo modo com uma melodia sintetizada com um elevado perfil hipnótico, vai sendo trespassada por alguns efeitos vigorosos e uma guitarra suja, enquanto um baixo encorpado acamou toda a trama instrumental, seja nos cinco minutos solarengos e de etérea delicadeza audíveis em Spooky Action e, de modo ainda mais contundente, no tema homónimo, The Former Site Of oferece-nos uma coreografia sonora criada por um elenco de extraordinários músicos e artistas, que sabem melhor do que ninguém como recortar, picotar e colar o que de melhor existe no universo sonoro ao qual dão vida e que deve estar sempre pronto para projetar inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte, assentes num misto de power pop psicadélica, indie folk e rock progressivo. Espero que aprecies a sugestão...

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