GUM é um projeto a solo liderado pelo australiano Jay Watson, um músico com ligações estreitas aos POND e aos Tame Impala, que em dois mil e vinte e três fez faísca no nosso radar devido a um disco intitulado Saturnia, um alinhamento de dez canções que viu a luz do dia no final do verão desse ano e que sucedeu ao registo Out In The World, que o artista lançou em dois mil e vinte.
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Cerca de um ano depois de Saturnia, no verão de dois mil e vinte e quatro, GUM voltou a chamar a nossa atenção e de mãos dadas com Ambrose Kenny-Smith, um dos elementos fundamentais dos King Gizzard And The Lizard Wizard. Juntos incubaram um disco intitulado Ill Times, um alinhamento de dez canções que figurou num honroso décimo nono lugar, na lista dos vinte melhores álbuns desse ano para a nossa redação. Era um registo cheio de canções ricas em arranjos, detalhes e nuances, verdadeiros pontos de encontro com aquele prazer que todos sentimos, independentemente do nosso grau de exigência sonora, por ouvir algo que nos embale e que fique no ouvido, neste caso direcionado principalmente para todos aqueles que gostam de navegar nas águas turvas do indie rock psicadélico.
Agora, quase dois anos depois, Jay Watson volta a chamar a nossa atenção com este seu projeto GUM devido a Blue Gum Way, o seu novo disco, um alinhamento de nove canções que acaba de ver a luz do dia com a chancela da p(doom) Records, a etiqueta dos King Gizzard And The Lizard Wizard.
De acordo com o próprio Jay Watson, o pop rock psicadélico dos anos oitenta do século passado e, em particular, a herança deixada pelos Talk Talk, expoentes máximos desse período épico e o disco A Moon Shaped Pool, que o Radiohead lançaram há praticamente uma década, foram grandes inspirações de Blue Gum Way, um registo que, no seu título, também homenageia o blue gum, uma espécie de eucalipto típico da Austrália.
Com um alinhamento de nove canções, Blue Gum Way é mais uma extraordinária demonstração da ímpar sagacidade com que Watson mescla sintetizadores e guitarras, dois mundos tantas vezes considerados díspares, mas que quando conjugados com bom gosto, criatividade e superior capacidade criativa, são capazes de originar tratados sonoros que merecem a mais dedicada e fervorosa audição. Bom exemplo neste disco dessa constatação é Celluloid, canção arritmada, sonoramente intensa e com um travo cósmico ímpar. Trata-se, de facto, de uma estonteante composição, com uma ímpar vibração cósmica, que encontra as suas fundações em guitarras repletas de distorções insinuantes, sintetizações vigorosas e impactantes e alguns arranjos de cordas acústicas revigorantes, num resultado final assente num puro e salutar experimentalismo catalisador.
Outro momento fantástico de Blue Gum Way é Expanding Blue, tema que, mantendo o ADN identitário deste projeto GUM e versando sobre as sensações de serenidade e de liberdade que um amor correspondido oferecem-nos sempre, permite-nos contemplar quase cinco minutos sonoros de acusticidade ecoante e contemplativa, feitos com guitarras dedilhadas com minúcia e alguns arranjos de outros instrumentos de cordas, acompanhados por um subtil piano insinuante e por diversos efeitos de proveniência sintética que oferecem ao tema o indispensável travo lisérgico que este projeto carrega sempre consigo, independentemente da carga emotiva das suas composições.
Depois, o piano ecoante, os coros angelicais e a bateria inclemente que sustenta Man Alive, os devaneios sintéticos enleantes que caraterizam a vasta interseção de sons, arranjos, flahses e sons que adornam a lisergia cósmica de Phosphene Scream, o perfil pop claramente oitocentista de In Life, uma das canções que melhor personifica a herança que a influência que os Talk Talk tiveram neste disco, o jogo experimental majestoso que guitarra e piano vivenciam em Outrider e a sedutora atmosfera contemplativa de It Happens Almost Every Day, são outros momentos altos de pouco mais de trinta e seis minutos que deixam a nu o tremendo dinamismo de um álbum que se deixa conduzir, como é natural, por muitas das imagens de marca daquele que é o habitual registo psicadélico de projetos conterrâneos que todos conhecemos e que comprovam que a Austrália é um manancial deste espetro sonoro do indie rock, mas também pelo que de melhor a contemporaneidade indie vai oferecendo a Jay. Espero que aprecies a sugestão...

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