Gorillaz - The Mountain

Dois anos e meio depois de Cracker Island, os britânicos Gorillaz, projeto formado por Russell, Noodle, 2D e Murdoc e conduzido pelo enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro, estão de regresso aos discos com The Mountain, o nono álbum da carreira do projeto, um alinhamento de quinze canções que chegou aos escaparates com a chancela da KONG, etiqueta criada pelo próprio grupo.

The Mountain é mais um disco conceptual, como é hábito nos Gorillaz, pretendendo, neste caso, ser uma espécie de banda sonora de uma festa na fronteira entre este mundo e o seguinte, explorando a jornada da vida e a emoção de existir. Para conseguir isso, o quarteto refugiou-se em Mumbai, na Índia, chegando lá à boleia de passaportes falsos fornecidos a Murdoch, por um mafioso de Nova Iorque. Na metrópole asiática, deixaram-se envolver pelo misticismo local e deixaram fluir corpo e mente pelos terrenos íngremes e montanhosos daquilo a que chamamos vida.

O resultado final desta jornada intimista, produzida pelos próprios Gorillaz, com a ajuda de James Ford, Samuel Egglenton e Remi Kabaka Jr. e gravada nos estúdios no Studio 13, em Londres e Devon, em diversos locais da Índia, incluindo Mumbai, Nova Deli, Rajasthan e Varanasi e em Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova Iorque, são quinze canções repletas de participações especiais de excelência, como são os casos de Bizarrap, Black Thought, Anoushka Shankar, Omar Souleyman, Johnny Marr (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Paul Simonon (The Clash), Yasiin Bey (anteriormente conhecido como Mos Def), os Idles e os Sparks, dos veteraníssimos irmãos Ron e Russell Mael.

The Mountain também serve para, de uma vez por todas, os apreciadores deste projeto com mais de duas décadas de existência, ficarem esclarecidos em definitivo, que os Gorillaz estão já muito longe daquele rock de matriz mais clássica, o rock que assenta em guitarras encharcadas em distorções, para uma guinagem em absoluto para territórios de cariz eminentemente sintético, ou seja, um modus operandi que, mantendo a experimentação como um conceito essencial, tem a eletrónica nos comandos, o hip-hop e o R&B na mira e o rock como apenas um apêndice, que pode servir para adornar detalhisticamente algumas canções que, desta vez, também olham de modo anguloso para heranças de diversas latitudes, com especial ênfase para a indiana, como se percebe logo no instrumental que abre e batiza o disco, mas também, logo de seguida, para The Moon Cave, uma canção pop no seu estado maior de excelência e pureza, com uma vasta pafernália instrumental, que pisca o olho a ambientes eminentemente clássicos, exemplarmente personificados nos violinos que adornam o tema, mas também na sobriedade percussiva e no balanço rítmico enleante que a mesma encarna.

A partir desse início prometedor, The Mountain prossegue a sua jornada sonora exuberante e heterogénea, repleta de canções que brilham com mestria e charme. The Happy Dictator, uma canção ímpar no modo como recria um verdadeiro oásis de pop sintética, à boleia de uma batida frenética cósmica, um teclado encharcado em sintetizações retro e um sem fim de entalhes, é um dos grandes exemplos do vigor e da intensidade  e frescura de The Mountain. Depois, em The Manifesto, canção que conta com as participações especiais do rapper argentino Trueno e com um pequeno trecho de Proof, membro dos D12, que faleceu há quase vinte anos, em abril de dois mil e seis, temos um tema que, de acordo, com Russell Hobbs, o baterista fictício dos Gorillaz, encarna uma meditação musical recheada de luz e uma viagem do nosso âmago à boleia de batidas, ou seja, uma canção que tem como propósito maior também encarnar o grande objetivo conceptual do disco, acima referido. O resultado final é um verdadeiro oásis lisérgico e contemplativo, em que world music, R&B, eletrónica, jazz, rap e hip-hop, conjuravam entre si com particular deleite e também com a ajuda de vários músicos indianos, nomeadamente os irmãos Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash, Ajay Prasanna, a banda Jea Band Jaipur e o coro Mountain Choir, dirigido por Vijayaa Shanker.

Há ainda outros momentos altos em de The Mountain, que atestam, com um grau de ecletismo nunca visto, toda a diversidade que podemos encontrar atualmente nos Gorillaz e em muita da pop que é mais apreciada nos dias de hoje, principalmente a que tem como origem o lado de lá do atlântico, claramente devido ao cuidado que Albarn teve na escolha dos convidados e da pafernália instrumental. E uma das facetas mais curiosas das quinze composições é todas elas conseguirem atingir com enorme mestria o propósito simbiótico entre aquilo que é o som Gorillaz e o adn do convidado desse tema. Bela tirada é, sem dúvida, a presença de Joe Talbot, vocalista dos Idles, em The God Of Lying, artista que induziu no tema o seu habitual registo vocal carismático e bastante vincado. Sonoramente, The God Of Lying oferece-nos uma espécie de reggae psicadélico, feito com sintetizadores buliçosos, um registo percussivo anguloso, a cargo do indiano Viraj Acharya e diversos arranjos acústicos algo subtis, dos quais se destacavam os que são proporcionados por um banjuri tocado pelo também indiano Ajay Prasanna. Depois, Damascus, composição que conta com as participações especiais do cantor sírio Omar Souleyman e do rapper norte-americano Yasiin Bey, que já foi Mos Def, impressiona pela imponência e pelo misticismo que exala. Cascatas de camadas diversas de sintetizações retro, rematadas por aquele clima percussivo frenético típico do crescente asíático e um olhar anguloso ao melhor hip-hop, adornando-o com referências óbvias ao mundo árabe, encarnam um festim multicultural de world music enérgico, rico, festivo e intenso. Antes, Orange County, tema que conta com as participações especiais do produtor argentino Bizarrap, da poeta e cantora Kara Jackson e, uma vez mais, da tocadora de cítara indiana‑britânica Anoushka Shankar, resulta de uma fusão inspirada entre a típica sonoridade oriental de origem indiana que nos oferece texturas de elevado pendor psicadélico e aquela pop contemporânea que contém um elevado espírito dançante e radiofónico, uma das imagens de marca de Bizarrap. Já The Hardest Thing, canção em que é possível escutar a voz do falecido Tony Allen, músico e baterista que morreu em dois mil e vinte e que colaborou com Damon Albarn em vários projetos, com especial ênfase no extraordinário The Good, The Bad And The Queen, é um oásis contemplativo, mas também, de certa forma, majestoso, em que sintetizadores com sopros e diversos efeitos percussivos, proporcionam-nos uma experiência auditiva algo levitante e bastante sensorial.

Álbum que deixa qualquer ouvinte boquiaberto perante uma verdadeira caldeirada impressiva, mas tremendamente sagaz e contemporânea, The Mountain obedeceu sagazmente ao propósito de dar vida e cor à inspiração que Albarn e Hewlett, o seu companheiro de sempre no projeto, sentiram perante adversidades recentes relacionadas com a partida de entes queridos. Fizeram-no como o luto deveria ser sempre, quando se relaciona com alguém de quem gostámos muito em vida e sentimos agora enorme saudade, celebrando a memória e acreditando que a morte é apenas uma passagem para algo maior e que a viagem pode muito bem ser feita escutando estas quinze canções, concebidas com abertura de espírito, mas também, obedecendo à filosofia estilística de cada participante, sempre na busca de um tronco comum, que defina aquele que é, duas décadas após a estreia, o definitivo adn dos Gorillaz. Espero que aprecies a sugestão...

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