Já chegou aos escaparates Hum Of Maybe, o sexto registo de originais do projeto Apparat, do músico alemão Sascha Ring, seis anos após a edição do excelente LP5. Este novo álbum de Apparat tem um alinhamento de doze canções e a chancela da Mute Recordings, tendo sido produzido pelo próprio Sascha Ring, com a inestimável contribuição do produtor Philipp Thimm.
Hum Of Maybe é uma porta escancarada para a melhor pop eletrónica que se vai fazendo atualmente, em especial no velho continente. É um disco cheio de texturas, que se vão sobrepondo em camadas e, como se percebe logo na epicidade crescente de Glimmerine, é um disco que vai da claridade e do polimento à rugosidade e ao cavernoso, quase sem se dar por isso e num abrir e fechar de olhos. Melodicamente, o registo está repleto de composições inspiradas e que seduzem pelo modo como se entranham nos ouvidos com paciência e sapiência.
Mas é no perfil instrumentalmente farto e opulento de Hum Of Maybe que o ouvinte se sente verdadeiramente recompensado. Chega a ser desafiante destrinçar, canção após canção, toda a amálgama de sons, instrumentos, nuances e efeitos, que aparecem e se esfumam e, simultaneamente, perceber o modo criativo e astuto como Sascha e Thimm manipularam o catálogo físico instrumental ao dispor em estúdio para incubar canções que acabam por ter, como não podia deixar de ser um perfil experimental intenso.
As distorções agudas ecoantes que introduzem A Slow Collision, o clima íntimo, reconfortante e cósmico de Gravity Test, a aspereza minimalista mas contundente de Tilth, a mistura impactante entre cordas vibrantes, teclados planantes e um naipe delicioso de atmosferas sonoras, no tema homónimo, a densidade robótica algo sombria de An Echo Skips A Name e o modo simultaneamente poderoso e delicado como, em Enough For Me, uma guitarra, um coro de violinos clementes e diversos entalhes percussivos nos fazem descer as profundezas da nossa alma, são momentos obrigatórios de um disco que nos provoca um saudável torpor, imaginado e concebido por alguém que parece decididamente apostado em compor música principalmente para si e, de forma subtil, criar um ambiente muito próprio e único através da forma como o sustenta instrumentalmente, ao privilegiar uma abordagem eminentemente sintética.
Hum Of Maybe é aparato e magia, sedução e meditação, em pouco mais de cinquenta minutos que vivem essencialmente da eletrónica e dos ambientes intimistas que a mesma pode criar sempre que lhe é acrescentada uma toada algo acústica, mesmo que haja um constante ruído de fundo orgânico e visceral. É deste cruzamento espetral e meditativo que o disco vive, um registo que espelha a elevada maturidade do autor e espelha a natural propensão do mesmo para conseguir, com mestria e excelência, manusear a eletrónica digitalmente e adicionar-lhe, muitas vezes de forma bastante implícita e quase inaudível, aquilo que melhor define instrumentalmente o orgânico.
Ganhando, a espaços, contornos de magnificência e ineditismo, Hum Of Maybe tem também um lado melancólico que não pode ser descurado, graças a uma arquitetura sonora que sobrevive num domínio muito próprio e que dificilmente encontra paralelo no cenário musical atual. Espero que aprecies a sugestão...

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