Já chegou aos escaparates URGH, o novo álbum dos britânicos Mandy, Indiana, uma banda sedeada em Manchester e liderada pela francesa Valentine Caulfield, acompanhada pelo guitarrista e produtor Scott Fair, o teclista Simon Catling e o baterista Alex Macdougall. O projeto estreou-se em dois mil e vinte e três com um excelente registo intitulado i've seen a way, que chamou, desde logo, a atenção da crítica especializada e lançou elevadas expetativas acerca do futuro próximo de um grupo que, graças ao sempre difícil segundo álbum, acaba de subir ao pódio do melhor noise rock contemporâneo, à boleia de um trabalho insidiosamente cativante, envolvente e intenso.
pic by Charles GallTambém com dez canções no seu alinhamento, produzidas pelo guitarrista Scott Fair e por Daniel Fox, da Gilla Band, dois mestres a captar o potencial mais inusitado de cada instrumento, URGH, álbum de protesto que versa sobre temas como a indiferença global relativamente aos mais desfavorecidos, o lado mais obscuro da mente humana e a toxicidade cultural, é um verdadeiro oásis para quem aprecia aquele rock que não se envergonha de dar as mãos à eletrónica mais corpulenta, para, num misto de experimentalismo e cinematografia, incubar canções que fogem muitas vezes ao arquétipo, mas que são resilientes no modo como equilibram potência e, imagine-se, melancolia e até delicadeza.
Eletrizante, mas também cerebral e meticulosamente calculado, URGH não está com rodeios no modo como confronta o ouvinte com o inesperado. Logo em Sevastopol, o modo aparentemente erróneo como Claufield, num misto de canto e declamação e embalada por insidiosas guitarras revarbadas, nos conduz a uma espécie de labirinto sonoro em que, segundo, após segundo, estamos sempre com receio de ouvirmos algo que nos estale os ouvidos com imponência, ficamos rendidos e convencidos relativamente ao clima predominante que vamos conferir daí em diante, durante pouco mais de trinta minutos que poderão deixar mossa a quem for devoto e cooperante durante a audição.
A partir daí, Magazine, canção em que, à boleia de uma linha melódica percussiva aguda, que faz lembrar um cruzar de facas afiadas, acamado por sintetizações cavernosas, Caulfield confronta um suposto violador com o seu próprio receituário, é outro excelente exemplo do padrão sonoro de um disco que até pode soar a alguns como algo virulento. Mas esse tema também plasma o modo como na boca da Caulfield, certos sons, frases e pontos de ordem se podem transformar em verdadeiras armas de arremesso, que se tornam poderosas contra os alvos que ela muitas vezes não se envergonha de nomear. Esse é, tambem, o caso de Life Hex, tema em que a cantora, exemplarmente acompanhada pelas inclementes baquetas do baterista Macdougall, desabafa toda a sua raiva sobre outros abusadores, neste caso aqueles que habitam no obscuro mundo da pedofilia. Pelo meio, em try saying, tema em que uma sintetização semelhante a uma hélice, corta a música em pedaços, sem dó nem piedade, protesta-se contra o monopólio das grandes farmacêuticas.
A política e as guerras também estão no radar dos Mandy, Indiana em URGH. Se em Dodecahedron, os sopros virulentos e o registo robótico hipnótico vocal de Claufield, uma imagem de marca do disco, servem para nos afligir com a recordação de que há quem viva diariamente com chuvas de bombas reais, já a enérgica e imponente ist halt so aborda, com ousadia e clarividência, a questão da Faixa de Gaza.
É com a instigadora, I’ll Ask Her, mais uma bela demonstração da primazia que os elementos percussivos, sejam orgânicos ou sintéticos, têm na definição da coluna vertebral sonora deste disco, que termina URGH, um álbum insidioso, mas também convidativo, porque exige que não façamos de conta que não é connosco e que não temos nada que nos envolver com os males deste mundo. Mais cedo ou mais tarde, mantendo essa atitude conformada e passiva, é bem possível que esses mesmos males desabem, com força, em cima de nós. E quando isso acontecer é a este disco que eles vão soar. Nada melhor do que estarmos precavidos e, mais do que isso, sermos sempre ativos e ardilosos na procura do bem e da justiça. Espero que aprecies a sugestão...

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