Bill Callahan - My Days Of 58

Bill Callahan está por estes dias bem sintonizado no nosso radar com o novo disco que o músico norte-americano, natural de Silver Spring, no Maryland, acaba de colocar nos escaparates, com a chancela da Drag City. Trata-se de um extraordinário alinhamento de doze canções intitulado My Days Of 58, que sucede ao registo  YTI⅃AƎЯ, que o artista lançou em dois mil e vinte e dois.

Pic by Bill McCullough

Oitavo álbum da carreira de Bill Callahan, My Days Of 58 é, conforme o título de certo modo pressupõe, um relato sonoro de uma experiência pessoal intensa, poderosa e redentora, que o músico, agora já com cinquenta e nove anos, viveu recentemente. Bill Callahan acaba de sobreviver, a custo e depois de uma grande luta, a um diagnóstico de cancro colorretal, doença que o levou, inclusive, a uma mesa de operações, uma experiência que, juntamente com tudo aquilo que a situação o fez viver e de acordo com o artista, foi intensa, traumática e o fez perceber que o destino lhe concedeu uma segunda oportunidade.

My Days Of 58 é, por um lado, o relato de todas essas semanas e meses de angústia e sofrimento, mas também um disco de memórias, em que o artista disserta, nomeadamente em Pathol O.G., sobre tudo aquilo que a vida lhe foi oferecendo. mas também é um disco de promessas, visto haver momentos em que se escutam planos, expetativas futuras e vontades. Por exemplo, em The Man I'm Supposed To Be, Bill Callahan afirma que o seu maior medo a partir de agora, já não é morrer, mas deixar de tentar viver em plenitude.

Secundado por Matt Kinsey na guitarra, Dustin Laurenzi no sax tenor e Jim White na bateria, My Days Of 58 oferece-nos, sonoramente, uma hora extraordinária de country folk rock psicadélico substantivo, repleto de momentos altos. Um deles é, por exemplo, Lonely City, um tema que vai crescendo em arrojo, tensão e intensidade, à medida que vai recebendo novos detalhes percussivos, enquanto uma guitarra planante ciranda, insistentemente, em oposição ao andamento melódico, comprovando, com enorme mestria e refinadíssima acusticidade, a superior capacidade interpretativa de Callahan e dos músicos que o acompanham. Depois temos também como momento obrigatório Stepping Out Of Air, canção que assenta num intenso perfil detalhístico, bem expresso, por exemplo, no clima algo humorístico do poema que musica, mas principalmente no modo sagaz e buliçoso como faz brilhar as cordas que, inicialmente cândidas e bem acompanhadas por alguns sopros de elevado travo orgânico e depois cheias de força e vigor, mas sempre num registo predominantemente acústico, conseguem exalar constantemente alma e têmpora, enquanto são exemplarmente acompanhadas pela bateria e pelo saxofone sempre seguros, principalmente no modo como sustentam a canção no instante em que ela resvala para terrenos mais robustos e vigorosos. É, no fundo, uma espécie de punk folk experimental, claramente intuitivo, mas cheio de charme e carisma.

Entretanto, a ímpar acusticidade minimalista, mas sentimentalmente profunda de Empathy, mais um tema sobre memórias passadas, o perfil igualmente cru e simplista, mas comovente de Lake Winnebago, tema sobre desejos finais, o pendor mais clássico e jazzístico de West Texas, uma canção que descreve, com sagacidade a doença e o perfil experimental e declaradamente irónico de Computer, canção em que Callahan vangloria-se da sua humanidade espiritual e carnal, são outras composições cheias de beleza e mistério, que engrandecem um disco repleto de histórias simples, mas cheias de brilho, intensidade e mérito, porque são concretas.

My Days Of 58 demonstra que um grande disco não tem de ser liricamente intrincado para ser grandioso, apesar de este até o ser, diga-se. O que se pretende afirmar é que não precisa de ter poemas semanticamente elaborados, para ser classificado como tal. Às vezes, uma coleção bem pensada de histórias simples, contada com as palavras certas e acessíveis e sem desnecessárias preocupações estilísticas, é meio caminho andado para assegurar um registo discográfico de superior quilate. E este é, sem dúvida, o grande trunfo de My Days Of 58, um alinhamento de doze temas que escavam a intimidade de um indivíduo para encontrar um tesouro de raízes, vivências e experiências únicas, fazendo-o, sonoramente, com a toada eminentemente acústica que define o adn do músico, plasmada num registo interpretativo que privilegia aquele formato canção que vai gradativamente agrupando novos elementos e sons distintos, até um final envolvente e sempre muito atrativo. Torna-se até viciante, em alguns temas, tentar descobrir todas as nuances, quer instrumentais, quer ao nível dos arranjos que é possível escutar.

Em suma, My Days Of 58 não precisa de luzes, néons ou extravagâncias desnecessárias, para espalhar a sua doutrina a quem a quiser absorver e que diz, no fundo, que vale a pensa viver sempre no máximo  e no limite e aproveitar o presente o melhor possível, porque o amanhã é, e será sempre, uma incógnita. Ao mesmo tempo, estas canções cheias de vitalidade, sagacidade e ousadia, plasmando as idiossincrasias de Callahan e a sua nova postura perante a vida, estabelecem também as premissas a partir das quais ele irá proteger e alimentar o seu rejuvenescido conceito de humanidade. Espero que aprecies a sugestão...

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