Beck Hansen, uma referência icónica da música popular das últimas três décadas, está no centro de um furacão mediático no universo sonoro indie e alternativo porque acaba de divulgar um novo alinhamento de canções intitulado Everybody’s Gotta Learn Sometime, já disponível para audição nas principais plataformas digitais e com o formato físico a ver a luz do dia a treze de fevereiro próximo.
Everybody’s Gotta Learn Sometime ainda não é, em termos de temas inéditos, o sucessor do registo Hyperspace que o artista californiano lançou no já longínquo ano de dois mil e dezanove. O que este novo registo de Beck nos oferece, são oito temas que se dividem entre algumas raridades que foram ficando na gaveta do artista e, essencialmente, covers de canções com que o autor se identifica particularmente.
Assim, o registo começa com o tema homónimo, um original de mil novecentos e oitenta dos britânicos The Korgis, verdadeiros mitos do rock progressivo dessa década. A roupagem da Beck é, neste tema e, diga-se, na maioria das canções de Everybody’s Gotta Learn Sometime, bastante intimista, carregada de sentimentalismo e brilhante no modo como aposta na simplicidade para, com minúcia, nunca defraudar o clima sentimental dos originais, no caso das covers, assim como a sua melhor filosofia interpretativa que é, como todos sabemos, aquela que aposta numa vasta heterogeneidade instrumental e num cuidadoso rendilhado entre o orgânico e o sintético, que fez, por exemplo, de Mutations, disco de mil novecentos e noventa e oito, um dos melhores da última década do final do século passado. Mas neste seu novo trabalho Beck mostra também, de novo, aquele efervescente festim folk, que sobressai pela luminosidade das cordas da viola e pelo seu exemplar registo vocal, ou seja, aquela estética típica de discos como Sea Change (2002) ou Morning Phase (2014), alinhamentos que no início deste século colocaram o músico californiano na lista das referências incontornáveis da melhor música popular contemporânea.
Neste novo trabalho, o modo como Beck utiliza a viola acústica, o slide de uma guitarra e, a espaços, o piano, para lidar com o acerto melódico de Love, um original de mil novecentos e setenta e que resultou, na altura, de uma colaboração entre John Lennon e Phil Spector, é um exemplo paradigmático desta tonalidade geral de trinta minutos que têm tanto de delicioso, como de inesperado, porque foram divulgados quase em segredo.
Assim, a pueril toada jazzística de Can't Help Falling In Love, um original escrito por Luigi Creatore, Hugo Peretti, George David Weiss e magistralmente interpretado por Elvis Presley, no registo Blue Hawaii, que o malogrado músico e ator norte-americano lançou em mil novecentos e sessenta e um, assim como a magistral reinterpretação, cósmica e planante, repleta de quase impercetíveis efeitos sintetizados borbulhantes e coloridos, do clássico I Only Have Eyes For You, dos The Flamingos, são belíssimos exemplos do jeito extraordinário que este artista continua a ter para se expressar com requinte e sem rodeios, mesmo quando se serve de poemas que não são seus e, ao mesmo tempo, iluminar o ambiente e aquecer o coração de quem o escuta.
Até ao ocaso de Everybody’s Gotta Learn Sometime, o clima clássico luxuriante de Ramona, um original que Beck criou em dois mil e dez para a banda sonora do filme de Edgar Wright, Scott Pilgrim vs. the World, o doce balanço que nos oferecem as cordas magnânimas que desmascararam, com ímpar delicadeza, a tonalidade esperançosa do original True Love Will Find You In The End, que Daniel Johnston incubou em mil novecentos e oitenta e quatro no seu maravilhoso disco Retired Boxer e, como não podia deixar de ser, o travo solarengo da reinterpretação do clássico Michelangelo Antonioni, de Caetano Veloso, são verdadeiros elixires soporíferos de um trabalho cativante, quer no modo como nos faz ressuscitar memórias de outros tempos, mas também na forma como nos convida à introspeção, com uma sobriedade distinta, focada numa instrumentação diversificada e impecavelmente produzida. Espero que aprecies a sugestão...

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