Um ano depois do excelente registo Five Dice, All Threes, os norte-americanos Bright Eyes, encabeçados pelo compositor e guitarrista Conor Oberst, ao qual se juntam, atualmente, o produtor e multi-instrumentista Mike Mogis, o trompetista e pianista Nate Walcott e vários colaboradores rotativos, vindos principalmente do cenário musical indie de Omaha, no Nebraska, estão de regresso ao nosso radar devido a um novo EP intitulado Kids Table, que viu a luz do dia com a chancela da Dead Oceans.

Pic by Mario Heller
Com um faustoso alinhamento de oito canções, tendo em conta que se trata de um EP, Kids Table também é instrumentalmente luxuriante, algo bem patente logo no luminoso tema homónimo, que tem no piano a grande força motriz, exemplarmente acompanhado por sopros, cordas e uma secção percussiva subtil, mas omnipresente. Depois, em Cairns (When Your Heart Belongs To Everyone), as cordas oferecem ao registo um cariz um pouco mais íntimo e familiar, enquanto os Bright Eyes navegam nas águas tranquilas daquela folk tipicamente americana que é também uma das imagens de marca do catálogo deste projeto.
Com uma curiosa abordagem nada displicente ao universo do ska, mas sem renegar o adn dos Bright Eyes, 1st World Blues acaba por ser o tema mais curioso do EP. Assente numa sólida embalagem sonora que coloca na linha da frente aquela indie folk enleante, gizada, neste caso, por uma secção rítmica aconchegante e embaladora 1st World Blues é uma canção rica em diversificados arranjos, marcados pelo uso de ricas orquestrações, que servem para dar vida a um crítica mordaz e contundente à sociedade capitalista contemporânea norte-americana, cada vez mais afundada num sem fim de dilemas, que fazem sobressair o individualismo e a sede de poder.
Até ao ocaso do EP, merece claro destaque Dyslexic Palindrome, composição que conta com a participação especial de Alynda Segarra, vocalista dos Hurray for the Riff Raff. Dyslexic Palindrome, título que reflete a imensa capacidade criativa e irónica da escrita de Conor Orbest, é um tema melodicamente algo hipnótico e instrumentalmente rico, estando repleto de diversificados arranjos, essencialmente percurssivos, trespassados por uma guitarra com um delicioso travo blues, detalhes que servem para dar vida a uma composição intensa e emocionalmente tocante.
Victory City, uma canção introspetiva e melancólica e que assenta a sua filosofia num romance homónimo assinado por Salman Rushdie, é outro tema de audição obrigatória num EP honesto, cheio de trocadilhos e referências, não só ao já citado Rushdie, mas também a nomes como William Shakespeare, Candice Bergen, ou Joe Strummer e que, num balanço perfeito entre uma espécie de otimismo desonesto e desespero pragmático, aprimora o ADN de uma banda obrigatória, quando se quer escutar o que de melhor o cenário indie do outro lado do atlântico tem para nos oferecer atualmente. Espero que aprecies a sugestão...
01. Kids Table
02. Cairns (When Your Heart Belongs To Everyone)
03. 1st World Blues
04. Sharp Cutting Wings (Song To A Poet)
05. It Always Feels Good And It Never Hurts
06. Dyslexic Palindrome (Feat. Hurray For The Riff Raff)
07. Shakespeare In A Nutshell
08. Victory City
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