Quatro anos depois de Seasons Of Your Day, os Mazzy Star de David Roback e Hope Sandoval estão de regresso à boleia da Rhymes of an Hour Records com um ep intitulado Still, um alinhamento de três originais e uma nova versão do clássico da banda So Tonight That I Might See, gravado pela primeira vez há vinte e cinco anos e que deu nome ao disco que a banda lançou em mil novecentos e noventa e três. Recordo que esse disco e o antecessor She Hangs Brightly (1990) cimentaram a posição dos Mazzy Star no universo mainstream, mas sem fazer deles um fenómeno à escala global. Tornaram-se numa espécie de segredo mal guardado, mas que acabou por cimentar muito do que hoje se escuta no campo da dream pop. O próprio fenómeno trip hop, que começava à época a dar cartas, por intermédio, principalmente, dos Massive Attack, foi mais uma distração que o grande público e os media tiveram e que os Mazzy Star aproveitaram, um pouco à imagem do que fariam uns Portishead anos depois, para criarem o seu nicho devoto de seguidores e conseguirem manter a sua identidade musical intacta sem terem de ceder e de se sujeitar às orientações da editora e às regras do mercado. Depois de terem editado três álbuns na década de noventa (além dos discos referidos, Among My Swan viu a luz do dia em mil novecentos e noventa e seis), Roback e Sandoval dedicaram-se a alguns projetos paralelos e às suas carreiras a solo, com o já referido Seasons Of Your Day, em 2003, a marcar uma nova etapa dos Mazzy Star que recebe com este EP mais um pequeno mas qualitativamente significativo fôlego.

Quiet, The Winter Harbor abre Still com Roback a assegurar a condução de um planante e melancólico piano, em redor do qual a voz de Sandoval divaga com a sua habitual assinatura doce e contemplativa e pela qual os anos parecem que não passam. Depois, o florescer melancólico que passeia pelas cordas e pelo efeito de That May Again e a altivez lo fi que exala do poema e do violão que conduz o tema homónimo, fazem-nos avivar a memória relativamente ao modo como fomos tocados no nosso âmago, há quase trinta anos, por uma fórmula que apostava em letras carregadas de nostalgia e melancolia e em detalhes sonoros delicados e introspetivos que nos levavam numa viagem algo sombria por um mundo tímido. Finalmente, o orgão e o reverb contínuo de So Tonight That I Might See, fornecendo-nos uma atmosfera mais psicadélica, mostram-nos uma tentativa clara da dupla em se contextualizar com algumas das novas tendências do rock mais ambiental, sem deixarem de imprimir o seu cunho identitário, numa versão plena de lisergia e espiritualidade.
Vinte e oito anos depois da estreia, este projeto californiano continua a alimentar em Still a sua saga feita de um negro romantismo que prescruta, constantemente, caminhos mais sombrios e particularmente hipnóticos e submersivos, mas que também sobrevive num clima doce e tocante, com um imenso travo a melancolia, feito ao som de canções com um sabor bucólico bastante impressivo e sentimentalmente rico. Espero que aprecies a sugestão...

01. Quiet, The Winter Harbor
02. That Way Again
03. Still
04. So Tonight That I Might See (.ascension version)
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