Já há alguns meses que não restavam quaisquer dúvidas que 2017 iria ser o ano em que os LCD Soundsystem de James Murphy iriam editar o sucessor de This Is Happening, nomeadamente desde que foram divulgadas na primavera Call The Police e American Dream, os primeiros avanços do novo álbum do grupo nova iorquino e que acaba de ver a luz do dia através da DFA Records do próprio Murphy. São dez canções que em pouco mais de uma hora nos mostram porque devemo-nos sentir verdadeiramente felizes por This Is Happening não ter sido o epílogo da banda, como foi na altura, no início desta segunda década do século XXI, profusamente prometido (It's (really...) Time To Get Away!). E convém referir que este alinhamento deve também algo de significativo a David Bowie, artista com quem Murphy, durante conversas que tinham como objetivo colocar o patrão da DFA a produzir Blackstar, diversas vezes desabafou a saudade que sentia do seu antigo projeto, um sentimento que ele veio a descobrir ser partilhado também por Nancy Whang e Pat Mahoney, outros dois nomes incontornáveis dos LCD. Aliás, a canção que encerra este American Dream, a sombria e minimal Black Screen, debruça-se sobre esta troca afetiva de argumentos entre Bowie e Murphy.
Quando uma nova corrente do indie rock começou a fazer escola no início deste século em Nova Iorque e as guitarras e o baixo começaram a dar as mãos aos sintetizadores e à eletrónica para invadir as pistas de dança do mundo inteiro, os LCD Soundsystem estavam na vanguarda desse movimento e a avalancar outros nomes, nomeadamente os Hot Chip, The Rapture, Cut Copy, !!! (chk chk chk), Radio 4 e Fischerspooner, entre outros, alguns deles abrigados pela própria DFA. E a verdade é que com a primeira saída dos LCD Soundsystem de cena, esse espetro sonoro que tanto sucesso obteve durante cerca de uma década, passou a viver um pouco na penumbra, apesar de nomes recentes como os Orange Cassettes e os próprios Liars parecerem sempre dispostos a levar o garage rock novamente nessa direção com assinalável mestria, sempre dançável e psicadélica. Agora, com este segundo capítulo do projeto de James Murphy e tendo em conta a assombrosa bitola qualitativa de American Dream, os dados estão novamente lançados para que o dance post punk rock volte novamente a estar na linha da frente e em plano de destaque no universo sonoro indie e este grupo volte a ocupar um trono que, no fundo, nunca deixou de lhes pertencer.
American Dream está repleto de composições intensas e melancólicas e que nos possibilitam usufruir de um mosaico declarado de referências, que se centram, essencialmente, numa mescla entre a típica eletrónica underground nova iorquina e o colorido neon dos anos oitenta, havendo inclusive, dentro desta bitola referencial, períodos introspetivos, que depois resvalam para finais épicos e de maior exaltação. Logo nos flashes sintetizados vigorosos e no piano divagante da futurista Baby se percebe que este é um disco que não defraudará toda a herança que traz atrás de si. E depois, no ritmo tribalista deliciosamente anguloso, proporcionado, em grande parte, pelo intenso baixo, de Other Voices, exemplarmente acompanhado pelo habitual efeito vocal ecoante de um James Murphy que canta e declama em simultâneo, somos de imediato transportados para os melhores momentos daquele já algo longínquo disco homónimo que ofereceu aos LCD Soundsystem a rampa de lançamento perfeita para um merecido estrelato.
Com estes dois temas iniciais a fazerem a ponte perfeita entre um glorioso passado e aquilo que os LCD Soundsystem querem continuar a explorar nesta nova demanda, American Dream prossegue numa espécie de balanço entre aquele clima underground que pisca o olho de modo bastante apetecível às pistas e momentos de algum pendor mais reflexivo, nomeadamente acerca do modo como Murphy vê a América que atualmente tanto o inquieta. Assim, se os devaneios rítmicos e o modo como é constantemente amplificada uma das cordas do baixo em Change Yr Mind, ou o festim sintético que transborda por todos os poros da efusiva e lasciva Tonite, são composições que nos fazem abanar a anca mesmo que não haja um firme propósito, apenas e só o facto de ser hora de celebrar. Já na espiral instrumental em que crescem guitarras e bateria em I Used To, ou na cadência algo angustiada do tema homónimo, que talvez procure refletir o modo como o tal sonho americano é hoje apenas uma ilusão sem sentido, sentimo-nos impelidos a procurar entender o modo como Murphy, sendo um dos melhores entertainers da atualidade, é também capaz de se sentir frustrado e desanimado com aquilo que observa ao seu redor. O espetacular baixo e o pendor exaltante dos sintetizadores e da batida crescente de Call The Police, acabam por fazer desta canção uma espécie de tema aglutinador perfeito de todo este receituário, um tema onde é possível descobrir razões para dançar de olhos fechados e a sorrir enquanto se pensa na vida e naquilo que mais nos consome e inquieta.
Disco que exige várias audições para ser devidamente compreendido, até porque vive muito deste apelo constante, mas nem sempre explícito, à festa, American Dream talvez reflita, no fundo, a realidade atual de uma América onde não existem, nos dias de hoje, muitas razões para celebrar ou motivos que inspirem à criação musical que exale, de modo evidente, a gloriosa celebração do que é viver num país que nunca se cansa de apregoar que lidera os destinos do mundo. De um modo mais particular, talvez aquele que mais interesse, ensina-nos que nunca é tarde para recomeçar, que os anos podem passar por nós, mas o nosso espírito pode manter-se amplamente jovial e criativo, mesmo que isso suceda de modo menos intuitivo, mas mais refletido, maduro e consciente. É assim, de certo modo, a melhor descrição que se pode fazer destes renovados LCD Soundsystem como entidade. Espero que aprecies a sugestão...

01. Oh Baby
02. Other Voices
03. I Used To
04. Change Yr Mind
05. How Do You Sleep?
06. Tonite
07. Call The Police
08. American Dream
09. Emotional Haircut
10. Black Screen
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