Depois de Man Alive (2010) e Arc (2013), os britânicos Everything Everything de Jonathan Higgs, Jeremy Pritchard, Alex Robertshaw e Michael Spearman estão de regresso aos discos com Get To Heaven, um álbum que viu a luz do dia a quinze de junho e que foi produzido pelo consagrado Stuart Price (Kylie Minogue, The Killers e Scissor Sisters), sendo o curioso artwork da autoria do ilustrador neozelandês Andrew Archer e que pretende sintetizar a temática de um disco que se debruça sobre o modo como a política e a religião nos consomem nos dias de hoje e como, de algum modo, agridem a nossa essência se nos deixarmos seduzir por estes estímulos exteriores de modo exacerbado e inconsciente.
Piscando o olho a um vasto leque de influências que vão da dream pop ao rock progressivo, passando pela eletrónica, o R&B e o indie rock contemporâneo, os Everything Everything chegam ao terceiro disco depois de um refinado e cuidadoso processo de corte e costura de todo o espetro musical que os seduz e que os sintetizadores e os efeitos inebriantes da guitarra de To The Blade desde logo anunciam. Depois, o indie rock de Regret, feito com uma percussão vincada, um baixo pleno de groove, uma guitarra particularmente melódica e um registo vocal em falsete exemplarmente replicado por Higgs, não foi uma escolha nada inocente para avanço no formato single de Get To Heaven, já que é uma canção marcante, cheia de personalidade e que antecipou um disco prometedor. Mas, antes desse tema, o piano de Distant Past e a postura vocal próxima do hip-hop, além de elevarem o clima festivo do disco, logo no início, para um patamar elevado de agitação e euforia, acaba por nos convidar à interação com o seu conteúdo, num trabalho que não deixa ninguém indiferente e que se percebe, desde logo, que não é para ser escutado como banda sonora casual, mas como escolha propositada para colorir um ambiente certamente empolgante e animado.
Com a voz dramática e estimulante de Higgs a ser, frequentemente, o sal que tempera devidamente a alma das canções que, como é o caso de Distant Past, escorrem sobre o modo como a evolução humana é hoje feita de extremismos, por um lado e um isolamento cada vez maior do indíviduo, enquanto pessoa cada vez mais fria e mecanizada, nesta aldeia global, Get to Heaven vive bastante desta aparente contradição entre a seriedade lírica e a espontaneidade e luminosidade melódica. Agregando uma variedade interessante de instrumentos e arranjos curiosos e até, em alguns casos, investidos de um certo requinte, como é o caso das bongas e as palmas do tema homónimo, a batida minimal de Fortune 500, ou os divertidos sintetizadores de Hapsburg Lippp, Get To Heaven merece relevo pelo modo como joga conosco com a sua paleta de cores fortes e psicadélicas, que entre a pop e a eletrónica, remexem em praticamente tudo o que se situa entre estes dois postes dando à banda uma identidade muito própria, já que se os Everything Everything são, realmente, uma banda parecida com tantas outras, talvez sejam poucas as que conseguem ser uma alternativa viável e sedutora para um espetro sonoro já tão explorado como aquele em que este quarteto britânico se move.
Disco divertido, indutor, frenético e provocante, Get to Heaven é um passo seguro e maduro dos Everything Everything rumo ao estrelato, um agregado interessante e improvável de análise psicológica e sociológica do estado atual do mundo, mas que pode sempre encontrar algum conforto e até, quem sabe, a esperada redenção e salvação nas pistas de dança espalhadas pelo mundo inteiro. Talvez possa ser a música o elemento conciliador e libertador das civilizações e os Everything Everything parecem querer voluntariar-se para levar a cabo essa cruzada inolvidável. Espero que aprecies a sugestão...

CD 1
01. To The Blade
02. Distant Past
03. Get To Heaven
04. Regret
05. Spring / Sun / Winter / Dread
06. The Wheel (Is Turning Now)
07. Fortune 500
08. Blast Doors
09. Zero Pharaoh
10. No Reptiles
11. Warm Healer
CD 2
01. We Sleep In Pairs
02. Hapsburg Lippp
03. President Heartbeat
04. Brainchild
05. Yuppie Supper
06. Only As Good As My God
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