U2 - Songs of Innocence

Disponível já para audição e download gratuíto na plataforma iTunes e com edição física prevista para o próximo dia treze de outubro, Songs of Innocence é o tão aguardado novo álbum dos irlandeses U2, o primeiro trabalho do grupo após um hiato de cinco anos, que teve início logo após o lançamento de No Lines On The Horizon.


Considerados por muitos como a maior banda do mundo em atividade, neste décimo terceiro disco da carreira, Bono, The Edge, Mullen e Adam resolvem dar vida a várias homenagens em forma de canções dedicadas a pessoas e artistas que foram relevantes no passado da banda e na vida pessoal dos seus integrantes. Assim, se The Miracle (of Joey Ramone) é uma homenagem sentida a Joey Ramone, o falecido vocalista dos Ramones, que nos deixou em 2001, Iris (Hold Me Close) é dedicada à mãe de Bono que, recordo, faleceu após ter sofrido um aneurisma cerebral durante o funeral do marido, pai de Bono. Já agora, outros temas dos U2, como I Will Follow ou Lemon, também se centram na morte da mãe de Bono. Assim, há neste disco um conteúdo lírico e emocional que, de algum modo, lida com a perca e a mortalidade, mas uma audição cuidada clarifica que é sem aquele cariz fatalista e sombrio que frequentemente é atribuido a esses dois conceitos.



Na verdade, Songs Of Innocence é, sobretudo, e de acordo com o texto de apresentação do disco, um tributo ao período que a banda passou no sol da Califórnia, numa fase inicial da carreira, uma estadia no outro lado do atlântico que, na altura, foi fundamental para a criação de alicerces musicais e sentimentais fortes entre estes quatro irlandeses, uma das explicações lógicas para uma carreira tão longa e bem sucedida. Aliás, California (There Is No End to Love), uma das melhores canções do alinhamento, é uma declaração sentida a esse estado norte americano que tanto diz aos U2.


Claramente ligados à corrente e com nomes como os Ramones, Bob Dylan e The Clash a serem influências declaradas, Songs Of Innocence tem uma sonoridade que não é particularmente compatível com os últimos registos da banda, apesar de ter o selo sonoro identitário único deste quarteto de Dublin. As guitarras mantêm-se como o grande suporte melódico da maioria das canções, mas há uma busca mais incisiva por ambientes mais brandos, sendo procurado um equilíbrio entre o charme inconfundível dessas guitarras que carimbam o ADN dos U2 com o indie pop rock que agrada às gerações mais recentes e onde abunda uma primazia dos sintetizadores e teclados com timbres variados, em deterimento das guitarras, talvez em busca de uma toada comercial e de um lado mais radiofónico e menos sombrio e melancólico.


Este encaixe de novas tendências é muito claro no piano e na espiral de efeitos que controlam a guitarra em Raised By Wolves, mas fica plasmado logo na já referida The Miracle (of Joey Ramone), uma canção onde os efeitos de voz e a percurssão ajudam a distorção das guitarras a fazer brilhar a voz vintage, mas ainda em excelente forma de Bono. Depois, Every Breaking Wave está pronta para fazer vibrar grandes plateias, com os sintetizadores e o baixo, juntamente com a guitarra e a percurssão, a conduzirem uma canção, com variações de ritmo e paragens que farão as delícas de qualquer operador de luzes durante um concerto da banda. O rock alternativo dos anos noventa é o fio condutor de California (There Is No End to Love) e o baixo de Volcano uma das melhores surpresas do alinhamento. Já This Is Were You Can Reach Me exala o lado mais extrovertido dos U2 por todos os poros sonoros e  tem alguns detalhes que nos convidam a uma pequena e discreta visita às pistas de dança mais alternativas, onde o discosound dos anos setenta ainda tem uma happy hour bem definida.


Uma das sequências mais interessantes de Songs Of Innocence é constituida pela balada Cedarwood Road, uma canção que oscila entre o rock mais progressivo e uma certa folk e onde a voz de Box assenta na perfeição, à qual se segue Sleep Like A Baby Tonight, o clássico tema orquestral conduzido pelo sintetizador, com alguns detalhes de um piano e outros efeitos a darem à canção um clima romântico e sensível único e tipicamente U2.


Quanto à voz de Bono, que fui fazendo referência e que já ouvimos cantar sobre imensas temáticas e muitos de nós apropriaram-se de vários dos seus poemas e canções para expressar sentimentos e enviar mensagens a pessoas queridas, é significativo perceber que ela continua a declamar com o habitual sentimento e que, pelos vistos, ainda não o conhecemos verdadeiramente e tem muito mais dentro de si para nos revelar. Em canções como Iris (Hold Me Close) ou Song For Someone percebe-se, como de algum modo já referi, um certo cariz autobiográfico, que se estende ao longo do resto do disco e fica claro que o mesmo é uma forma honesta e sentida de exorcização do acontecimento mais trágico na vida de Bono, mas que devem prevalecer, acima de tudo, as boas memórias e as recordações positivas que o músico ainda guarda dentro de si da mãe.


Songs Of innocence chega ao ocaso com a sentida e confessional The Troubles e, no fim, percebemos que acabámos de escutar um disco feito com bonitas melodias e cheio de detalhes que mostram que os U2 ainda estão em plena forma e conhecem a fórmula correta para continuar a deslumbrar-nos com o clássico rock harmonioso, vigoroso e singelo a que sempre nos habituaram, fazendo-nos inspirar fundo e suspirar de alívio porque, felizmente, há bandas que, pura e simplesmente, não desistem. Espero que aprecies a sugestão...



The Miracle (of Joey Ramone)
Every Breaking Wave
California (There Is No End to Love)
Song for Someone
Iris (Hold Me Close)
Volcano
Raised by Wolves


Cedarwood Road


Sleep Like a Baby Tonight
This Is Where You Can Reach Me
The Troubles


Comentários

  1. Espero que não me leve a mal, gostei muito do texto da sua análise ao novo album dos U2, tendo tido conhecimento do artigo através do fórum da Blitz. No entanto, permita-me fazer uma correcção a uma informação descrita no texto:

    Quando refere "Iris (Hold Me Close) é dedicada à mãe de Bono que, recordo, faleceu após ter sofrido um aneurisma cerebral durante o funeral do marido, pai de Bono", esta informação é incorrecta, pois embora Bono tenha sofrido a perda da mãe devido a esta infeliz e fatal situação clinica durante um funeral, foi durante o funeral do seu próprio pai, avô de Bono, em 1974, teria Bono 14 anos.
    O pai de Bono, Bob Hewson, faleceu em 2001, a 21 agosto.

    Permita-me este pequeno apontamento, pois penso que o artigo, cativante, merece esta correcção histórica!

    Muito obrigado e continue com o blog! Já o adicionei ali aos marcadores!

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  2. Obrigado pela correção e pela simpatia. Abraço!

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