Depois do aclamado EP Destroyed Places, editado em 2012, os londrinos You Walk Through Walls estreiam-se finalmente no formáto álbum com um espetacular homónimo, que contém dez canções e que viu a luz do dia por intermédio da etiqueta Club AC30. Os You Walk Through Walls são Matt, James e Harry, um trio que renasceu das cinzas dos lendários Air Formation, de Matt e James.
O conteúdo sonoro que vive muito de referências do passado, nomeadamente o garage rock dos anos sessenta e a psicadelia da década seguinte, continua na ordem do dia e este disco é mais um exemplo feliz de uma mescla de diferentes estilos vintage, mas que congregam muitas das qualidades do indie rock atual, através de um espírito de composição algo volátil e envolvido por uma intensa dose de experimentalismo.
You Walk Through Walls demonstra cabalmente que uma sonoridade ruidosa não é inacessível para quem pretende ser simultaneamente melódico; O jogo potente que se desenvolve entre a bateria e as guitarras em Burning Inside, ou os efeitos de Revelations, têm particularidades intrínsecas à dream pop, com a psicadelia a ser, naturalmente, aquele detalhe firme e constante, que se apoia em alguns interessantíssimos momentos etéreos criados pelos efeitos particularmente melódicos que provêm da distorção da guitarra.
Como seria de esperar neste espetro sonoro, presente-se um certo clima sombrio ao longo da audição, como se os You Walk Through Walls canalizassem para a sua música um hipotético sofrimento que sobre eles se abateu, usando-o como um meio criativo e assim expressarem, através de uma tragédia, a sua visão poética da dor, de forma comovente e sincera, com Wrap Myself In Dreams a ser um exemplo bastante particular dessa indisfarçável necessidade de carpir algo através da música.
Em oposição a esse clima mais contido e etéreo, a ânsia, a rispidez e a pura e simples crueza de temas como Always Want to Know ou o single Gone In A Day, entre outros, são suavizados por um grande cuidado na produção e nos arranjos, principalmente nas cordas, que procuram uma clara diversidade melódica e até instrumental e a demonstração de um cuidado controle das operações, mas sem deixar de ter o habitual universo cinzento e nublado, que, pelos vistos, cobre a mente criativa de Matt, o líder do projeto. Mesmo quando em Far Beyond há um perigosa aproximação ao rock mais negro e progressivo, os You Walk Through Walls não ultrapassam completamente essa fronteira e não embaraçam a fidelidade que demonstram relativamente à tendência geral do álbum, conseguindo ainda apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente.
No final do disco, a pop mais branda da já citada Revelations e de How Can We Go On, poderá ser um bom indicativo de que o amanhã deste grupo londrino assentará também em bases sonoras mais ambientais, mas sempre ampliadas com o potencial psicadélico das guitarras e da voz flutuante de Matt, para que nunca se perca o charme que é intrínseco ao cardápio sonoro deste grupo.
You Walk Through Walls é um álbum muito carregado emocionalmente e talvez pretenda refletir o estado psíquico de uma banda que personifica um novo ponto de partida para dois músicos muito marcados por transformações e dissabores, mas que nunca deixaram, ao longo da carreira, de tentar ser coerentes no desejo de deixar, disco após disco, novas pistas para a salvação do rock. O resultado final algumas vezes não foi o melhor, mas essa nobre intenção de recomeçar ganhou um novo vigor neste disco que, quanto a mim, faz destes You Walk Through Walls novos mestres na arte de dissecar uma já clássica relação estreita entre o rock de garagem e o punk psicadélico e exímios na forma como colocam na voz aquele cariz algo sombrio que tão bem carateriza este género de sonoridade. Espero que aprecies a sugestão...

01. Burning Inside
02. Gone In A Day
03. Miss So Much
04. The Light Is Fading
05. Wrap Myself In Dreams
06. Always Want To Know
07. Far Beyond
08. On My Way
09. How Can We Go On
10. Revelations
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