No fenómeno musical alternativo há casos em que, infelizmente, alguns projetos que surgem, no exato momento em que podem ascender a uma posição de relevo e importante reconhecimento, separam-se, muitas vezes sem motivo aparente. Ontem, numa curta declaração no Facebook, os Gauntlet Hair anunciaram, sem grandes justificações, o fim da banda, no exato momento em que, depois de um disco homónimo de estreia, esta dupla de Chicago formada por Andy R. (voz e guitarra) e Craig Nice (bateria), estava de regresso com Stills, álbum lançado no passado dia dezasseis de julho através da Dead Oceans, mas com alguns singles a verem a luz do dia por intermédio da Forest Family e da Mexican Summer. Já agora, e apenas em jeito de curiosidade, esta dupla transformava-se em quarteto ao vivo com as presenças de Matt Daniels and Nathan Wright.
Gravado durante o escuro e frio inverno de Portland num estúdio apropriadamente chamado The Cave e produzido por Jacob Portrait (Unknown Mortal Orchestra), Stills tem uma sonoridade incomum nos dias de hoje, tendo nascido no seio de uma banda que revela um imenso apetite pelo passado do rock gótico e da pop mais negra. O disco é, de acordo com a banda, uma espécie de saudação moderna dos Gauntlet Hair a Trent Reznor e, consequentemente, ao rock industrial feito de batidas e de sintetizadores pulsantes. Sonoramente a estreia era um pouco diferente deste Stills, o que demonstra desde já que os Gauntlet Hair, no sempre difícil segundo álbum, em vez de seguirem à risca a fórmula inicial, procuraram desbravar novos e diferentes territórios sonoros, mantendo a matriz identitária retro que os define.
Craig confessou recentemente que a dupla voltou a ouvir bandas que escutou na adolescência, nomeadamente os White Zombie e os Marylin Manson e que toda essa nostalgia pela vertente gótica do rock tornou-se ainda mais vincada nos gostos pessoais do projeto e que este recalcamento acabou também por influenciar decisivamente o conteúdo de Stills.
Se Gauntlet Hair apostava muito em detalhes típicos do R&B, da chillwave e até da house music, Stills é ainda mais negro e atípico; Além das influências já citadas, as dez canções deste trabalho cruzam fronteiras com o post punk e o grunge (Heave) e em temas como Waste Your Art, GID e Human Nature misturam-se detalhes típicos de nomes como os Joy Division e os The Jesus and Mary Chain, com a new wave e uma pop algo vanguardista, feita por uns INXS e uns Depeche Mode, aquela pop vintage eletrificada e sintetizada que deitou as suas sombras sobre as décadas de oitenta e noventa.
As vozes neste disco destacam-se por uma elevada dose de reverb e distorção e a temática, naturalmente, aborda os problemas das relações pessoais e da dificuldade que muitas vezes sentimos em abordar o outro e expôr as nossas emoções, algo bem explícito em Human Nature (They tell me I make you smile, One time a week... When it comes out it’s all I see, And that’s when you tell me it’s just your human nature) e em Falling Out, onde o verso Falling out of love with you se repete inúmeras vezes, quase em desespero, num clamor que exige aceitação sobre pena de a não correspondência poder causar danos irreparáveis.
Stills deixa um sabor amargo para quem aprecia o seu conteúdo, porque o seu brilhantismo reside exatamente nas pistas que lança e que poderiam balizar o futuro sonoro dos Gauntlet Hair e que seria certamente bastante risonho. Espero que aprecies a sugestão...
01. Human Nature
02. Spew
03. Simple
04. Bad Apple
05. New To It
06. Obey Me
07. Heave
08. G.I.D.
09. Falling Out
10. Waste Your Art
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