Gorillaz – Orange County ((feat. Bizarrap, Kara Jackson e Anoushka Shankar) vs The Hardest Thing (feat. Tony Allen)
Dois anos e meio depois de Cracker Island, os britânicos Gorillaz, projeto formado por Russell, Noodle, 2D e Murdoc e conduzido pelo enorme Damon Albarn, talvez a única personalidade da música alternativa contemporânea capaz de agregar nomes de proveniências e universos sonoros tão díspares e fazê-lo num único registo sonoro, estão de regresso aos discos com The Mountain, o nono álbum da carreira do projeto, um alinhamento de quinze canções que vai chegar aos escaparates a vinte de março, com a chancela da KONG, etiqueta criada pelo próprio grupo.
The Mountain será mais um disco conceptual, como é hábito nos Gorillaz, pretendendo, neste caso, ser uma espécie de banda sonora de uma festa na fronteira entre este mundo e o seguinte, explorando a jornada da vida e a emoção de existir. Para conseguir isso, o quarteto refugiou-se em Mumbai, na Índia, chegando lá à boleia de passaportes falsos fornecidos a Murdoch, por um mafioso de Nova Iorque. Na metrópole asiática, deixaram-se envolver pelo misticismo local e deixaram fluir corpo e mente pelos terrenos íngremes e montanhosos daquilo a que chamamos vida.
O resultado final desta jornada intimista, produzida pelos próprios Gorillaz, com a ajuda de James Ford, Samuel Egglenton e Remi Kabaka Jr. e gravada nos estúdios no Studio 13, em Londres e Devon, em diversos locais da Índia, incluindo Mumbai, Nova Deli, Rajasthan e Varanasi e em Ashgabat, Damasco, Los Angeles, Miami e Nova Iorque, são quinze canções repletas de participações especiais de excelência, como são os casos de Bizarrap, Black Thought, Anoushka Shankar, Omar Souleyman, Johnny Marr (The Smiths), Mark E. Smith (The Fall), Paul Simonon (The Clash), Yasiin Bey (anteriormente conhecido como Mos Def), os Idles e os Sparks, dos veteraníssimos irmãos Ron e Russell Mael.
The Happy Dictator, uma canção ímpar no modo como recria um verdadeiro oásis de pop sintética, à boleia de uma batida frenética cósmica, um teclado encharcado em sintetizações retro e um sem fim de entalhes, foi o primeiro single divulgado do alinhamento de The Mountain. Em outubro, tivemos a possibilidade de conferir The Manifesto, canção que contava com as participações especiais do rapper argentino Trueno e com um pequeno trecho de Proof, membro dos D12, que faleceu há quase vinte anos, em abril de dois mil e seis. Era uma tema que, de acordo, com Russell Hobbs, o baterista fictício dos Gorillaz, encarnava uma meditação musical recheada de luz e uma viagem do nosso âmago à boleia de batidas. O resultado final foi, como certamente se recordam, um verdadeiro oásis lisérgico e contemplativo, em que world music, R&B, eletrónica, jazz, rap e hip-hop, conjuravam entre si com particular deleite e também com a ajuda de vários músicos indianos, nomeadamente os irmãos Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash, Ajay Prasanna, a banda Jea Band Jaipur e o coro Mountain Choir, dirigido por Vijayaa Shanker.
Já em novembro, tivemos para escuta The God Of Lying, canção que contava com a participação especial de Joe Talbot, vocalista dos IDLES, artista que induziu no tema o seu habitual registo vocal carismático e bastante vincado. Sonoramente, The God Of Lying ofereceu-nos uma espécie de reggae psicadélico, feito com sintetizadores buliçosos, um registo percussivo anguloso, a cargo do indiano Viraj Acharya e diversos arranjos acústicos algo subtis, dos quais se destacavam os que são proporcionados por um banjuri tocado pelo também indiano Ajay Prasanna.
Quase no final do ano de dois mil e vinte e cinco, tivemos para escuta Damascus, composição que contava com as participações especiais do cantor sírio Omar Souleyman e do rapper norte-americano Yasiin Bey, que já foi Mos Def. Damascus impressionou pela imponência e pelo misticismo que exalava. Cascatas de camadas diversas de sintetizações retro, rematadas por aquele clima percussivo frenético típico do crescente asíático e um olhar anguloso ao melhor hip-hop, adornando-o com referências óbvias ao mundo árabe, encarnam um festim multicultural de world music enérgico, rico, festivo e intenso.
Agora, em pleno mês de janeiro e a poucas semanas do lançamento de The Mountain, temos a oportunidade de conferir mais dois temas do alinhamento do disco, Orange County, tema que conta com as participações especiais o produtor argentino Bizarrap, da poeta e cantora Kara Jackson e, uma vez mais, da tocadora de cítara indiana‑britânica Anoushka Shankar e The Hardest Thing, canção em que é possível escutar a voz do falecido Tony Allen, músico e baterista que morreu em dois mil e vinte e que colaborou com Damon Albarn em vários projetos, com especial ênfase no extraordinário The Good, The Bad And The Queen.
Orange County é um tema que resulta de uma fusão inspirada entre a típica sonoridade oriental de origem indiana que nos oferece texturas de elevado pendor psicadélico e aquela pop contemporânea que contém um elevado espírito dançante e radiofónico, uma das imagens de marca de Bizarrap. Já The Hardest Thing é um oásis contemplativo, mas também, de certa forma, majestoso, em que sintetizadores com sopros e diversos efeitos percussivos, proporcionam-nos uma experiência auditiva algo levitante e bastante sensorial. Confere...
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