GEE‑AITCH - Mess Of Words

GEE‑AITCH é um projeto musical encabeçado por José Gentil‑Homem, músico portuense com uma trajetória que atravessa várias influências antes de se dedicar a uma eletrónica alternativa e experimental. O projeto estreou-se em dois mil e dezoito com o EP Left Hand Page, que recebeu atenção da crítica, que destacou o clima caseiro, denso e quase claustrofóbico do seu conteúdo, recheado de temas brilhantes, gravados com recursos mínimos.

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Dois anos depois, em dois mil e vinte, GEE‑AITCH evoluiu e estreou-se no formato longa duração com o registo Odyssey, ao qual se seguiu, logo no ano seguinte, Insane, dois álbuns eminentemente introspetivos e minimalistas e assentes em texturas eminentemente eletrónicas, que acabaram por vincar um adn e uma assinatura sonora muito próprias e marcadas por sensibilidade e honestidade.

Agora, no início de dois mil e vinte e seis, GEE‑AITCH acaba de chamar a nossa atenção devido a Mess Of Words, o terceiro disco do projeto. É um alinhamento de oito canções que, em pouco menos de vinte minutos, encarnam uma filosofia interpretativa muito pessoal já que, de acordo com o próprio José Gentil-Homem, plasmam uma fase mais madura e consistente da sua vida. Todas as faixas foram inicialmente compostas ao piano, mas, naturalmente, durante a produção, o piano desapareceu. O resultado é um disco alternativo, pensado para que a música se integre na vida de quem a ouve, criando memórias e pequenas alegrias, seja numa conversa, num cheiro, numa lembrança do dia a dia.

Misturado e masterizado no ArdaRecorders, pelo técnico Ze Nando Pimenta, no Porto, o álbum reflete equilíbrio, clareza e uma maturidade que se distancia das primeiras experiências mais experimentais do artista. São oito canções de cariz fortemente ambiental, como se percebe logo na incontetável beleza e coerência de Here In The Dark, sustentadas por várias camadas de sintetizações, uma espiral pop onde não falta um marcante estilo percurssivo e onde tudo é filtrado de modo bastante orgânico, amplo e rugoso. No entanto, a acusticidade das cordas também deixa uma marca impressiva, nomeadamente em Fish Fillet, canção que impressiona pela cândura inicial, mas que depois se desenvolve e simultaneamente nos envolve, numa espiral de sentimento e grandiosidade. Já Look Like Him, por exemplo, aposta num som mais esculpido e complexo, plasmando uma dinâmica feliz entre um enorme manancial de efeitos e samples de sons que nos obrigam a um exercício exigente de percepção fortemente revelador e claramente recompensador. Por outro lado, temas como a lisérgica No Pressure, o clima punk de Homicide ou Mess Of Words, uma espiral frenética e empolgante de synthpop, impressionam pelo cariz sensorial, criando um cenário de certo modo idílico também para os apreciadores daquele rock progressivo mais enérgico e libertário.

Disco que convoca vários universos sonoros que, da eletrónica, à pop, passando pelo próprio rock progressivo, criou uma relação simbiótica bastante sedutora, Mess of Words é, acima de tudo, uma continuação do percurso de GEE‑AITCH: uma vida confusa e complexa, agora traduzida numa fase estável e introspectiva, com o desejo de que, de acordo com o autor, cada música faça parte da vida das pessoas, acrescentando algo a cada memória que desperta. Espero que aprecies a sugestão...

 

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