
20 - Jens Lekman - Songs for Other People’s Weddings
Este disco é um verdadeiro musical, com dezassete canções intensas e que exalam uma euforia indescrítivel, que é para ser ouvida em cerca de oitenta minutos sem pausas ou cortes, para poder ser devidamente apreciado. A história das canções, o dito musical, acompanha o arco do romance entre J, o alter ego de Lekman, e V. Conhecem-se num casamento onde todos os convidados estão vestidos como músicas e depois de tomarem um comprimido com sabor a laca, entregam-se à ligação lúdica que definirá a sua intimidade. Trata-se de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, ser um observador externo do amor, participante e espectador, uma divisão que esbate a linha entre a vida e a música, algo que Lekman adora fazer.
19 - Living Hour - Internal Drone Infinity
As dez canções deste disco incorporam, na íntegra, doses indiscretas de uma pop suja e nostálgica, que nos leva a degustar, em pouco mais de trinta e cinco minutos, um amigável confronto entre o rock alternativo de cariz mais lo fi com aquela pop particularmente luminosa e com um travo a maresia muito peculiar. Conceitos como densidade, nostalgia, crueza e hipnotismo, assaltam a nossa mente canção após canção, sempre com elevada essência pop e um acerto melódico que nunca vacila.
18 - The Lemonheads - Love Chant
Love Chant é uma confirmação de um elevado grau de astúcia e criatividade, assinado por Evan Dando, a grande força motriz dos The Lemoheads, um músico que é, sem sombra de dúvida, um dos nomes mais relevantes do indie rock das últimas quatro décadas. São pouco mais de trinta e cinco minutos que nos levam facilmente e num abrir e fechar de olhos, do nostálgico ao glorioso, à boleia de uma espécie de indie-folk-surf-suburbano, particularmente luminoso e que acaba por se tornar até viciante, tal é a sua frescura e a proximidade que estabelece com o ouvinte. Em Love Chant não deslumbra apenas a versatilidade instrumental e performativa dos intervenientes, mas também, muitas vezes, o balanço perfeito entre o vigor e a delicadeza dos arranjos, dominados quase sempre pelas cordas, mas, principalmente, pelo tom emocional e profundamente melódico das canções, que plasmam uma evidente maturidade musical de um projeto que ainda se quer mostrar relevante, interventivo e inventivo, através de um dos melhores exemplares de indie rock do ano.
17 - Preoccupations - Ill At Ease
Mestres em replicar um som de forte cariz urbano e industrial, um perfil interpretativo que ali, algures entre o apogeu do punk rock oitocentista e o enganador ocaso daquele krautrock que ganhou forma e sustento na década anterior, encarnado, à época, num vaivem transatlântico entre Berlim e a costa leste dos Estados Unidos, os Preoccupations são, claramente, um dos projetos mais excitantes da atualidade dentro do espetro sonoro em que se movimentam. Neste seu novo álbum, vibrante, efusivo e repleto de efeitos sintéticos de forte cariz retro e com uma ímpar tonalidade abrasiva, os canadianos mostram, com vigor, ao que vêm. O tempero em que se cozem as oito canções Ill At Ease, mostra o modo impressivo como os Preoccupations voltam a querer estar na vanguarda da indução de novas nuances e conceitos estilísticos a um género sonoro demasiado abrangente para se poder dizer que são diminutas as possibilidades de lhe acrescentar algo de novo e diferente.
16 - Ezra Furman - Goodbye Small Head
Goodbye Small Head são doze variações sobre a experiência de perder completamente o controle, seja por fraqueza, doença, misticismo, BDSM, drogas, desgosto ou apenas por viver numa sociedade doente com os olhos abertos. O conteúdo deste incrível tomo de canções profundamente pessoais, ressoam no nosso íntimo sem apelo nem agravo, mesmo que nos possa causar algum desconforto, o conteúdo filosófico das mesmas. Com uma energia, uma autenticidade e um carisma inconfundíveis, Goodbye Small Head oferece-nos uma viagem aventureira e até algo psicadélica, feita por um músico que sente finalmente ter força, amor próprio e vigor para encarar diferente o mundo novo que se abriu de par em par depois de concluído o processo de transformação pessoal que viveu, com a primazia da guitarras, o charme do piano e a insistência em utilizar entalhes sintéticos sem receios, a demonstrarem cabalmente que a carreira de Furman merece, claramente, uma projeção intensa, até porque temos aqui canções que podem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída, ou necessita urgentemente de assumir uma outra identidade.
15 - Throwing Muses - Moonlight Concessions
Os norte-americanos Throwing Muses são, sem qualquer dúvida, um nome fundamental do rock alternativo contemporâneo. Sempre disponíves para acompanhar as novas tendências e conseguindo um equilíbrio perfeito entre o seu adn e algumas nuances mais recentes, vão, disco após disco, mantendo uma vitalidade criativa apreciável, que ganha novo fôlego nesta coleção de canções que encontram o seu sustento no rock lo fi, no garage e também naquele punk rock mais sujo e visceral e, talvez por isso, o mais genuíno e eficaz. Num resultado final bastante orgânico e cheio de personalidade, aspereza e delicadeza são duas faces de uma mesma moeda em que persiste, independentemente do estilo de cada composição, um frenesim sempre latente e um forte cariz lo fi, com as cordas a serem dedilhadas com uma aúrea de aspereza e rugosidade únicas, mas também com ímpar subtileza e charme, num disco que é, no seu todo, algo inebriante e que exala um salutar experimentalismo garage livre de constrangimentos.
14 - Dan Mangan - Natural Light
Natural Light é uma coleção de canções de amor, pensadas para dar alguma cor e alento a um mundo claramente à beira do colapso. Em treze canções, Natural Light oferece-nos um intimista, impressivo e tocante tratado de indie folk, repleto de canções melodicamente inspiradas e que têm no registo vocal rugoso, mas tremendamente realista de Mangan e na guitarra acústica, quase sempre enredada com diversos entalhes percussivos, de pendor essencialmente orgânico, as suas grandes traves mestras.
13 - Sun Kill Moon and Amoeba - Sun Kil Moon And Amoeba, Vol. II
Sun Kil Moon And Amoeba, Vol. II é o segundo capítulo de uma saga colaborativa que Sun Kil Moon tem encetado, nos últimos tempos, com um grupo de músicos húngaro de jazz chamado Amoeba. Trata-se de um belíssimo compêndio sonoro, onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave e esteticamente bastante vincada e com uma assintura única, em uma hora de música que transborda uma majestosa e luminosa melancolia.
12 - Ben Kweller - Cover The Mirrors
Cover The Mirrors é um álbum intenso no modo como exala sentimentos profundos e marcantes, sendo o primeiro trabalho lançado pelo autor, depois da morte do seu filho, Dorian Zev, num acidente de viação em dos mil e vinte três. É num vaivém constante entre esperança e acomodação, aceitação e rejeição e luta e desespero, que desfila um verdadeiro festim de canções pop, umas vezes mais límpidas, noutros momentos ruidosas, mas sempre exemplarmente picotadas e fragmentadas, de modo a penetrarem, sem hesitação, no mais profundo no nosso subconsciente. Cover The Mirrors prova que Kweller comunica connosco através de um código específico, tal é a complexidade e a criatividade que estão plasmadas nas suas canções, usando como principal ferramenta alguns dos típicos traços identitários de uma espécie de folk psicadélica, com uma considerável vertente experimental associada.
11 - Arcade Fire - Pink Elephant
Pink Elephant é descrito pelos Arcade Fire como cerca de quarenta e dois minutos de punk místico cinematográfico, que convida o ouvinte para uma odisseia sonora, uma busca pela vida que existe dentro da perceção do indivíduo, uma meditação sobre a escuridão e a luz, a beleza interior, enquanto se debruça sobre aquela sensação que todos conhecemos de querermos evitar um pensamento o mais possível e esse simples facto ser suficiente para que ele não se desvaneça. De facto, quer o aspeto visual do álbum, quer o conteúdo sonoro do mesmo, confirmam estarmos na presença desse tal passo concetual que encarna, claramente, um passo em frente na carreira do projeto canadiano, cada vez mais distante do épico rock alternativo, com deliciosas pitadas de indie folk, que nos marcou a todos no início deste século. Assim, em Pink Elephant, com diversidade, criatividade e, a espaços, com elevado hipnotismo e magnetismo e sempre com uma contemporaneidade ímpar, os Arcade Fire colocam todas as fichas numa filosofia sonora que encarna uma espécie de arco interpretativo que abraça a herança kraftwerkiana setentista com o período áureo do melhor punk rock oitocentista.
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