MIRANDA - Un_Love

Chegou no passado dia dezassete de outubro aos escaparates Un-Love, o disco de estreia do projeto MIRANDA, liderado pelo músico João P. Miranda, natural de Portalegre e que, para incubar este alinhamento de oito canções, contou com as inestimáveis contribuições vocais de Liliana Bernardo, Rita Rice e Cat Falcão.



Este álbum de estreia do projeto MIRANDA desenvolve-se a partir de uma questão essencial: é possível desamar ou apenas perder um amor? Essa ambiguidade percorre todo o disco feito de canções que se movem entre a dor do desencontro e a esperança luminosa do reencontro, mostrando que a melancolia pode conviver com a persistência e a beleza do amor. Mais do que um lamento, Un_Love assume a melancolia como um estado de alma, um fado contemporâneo em que a perda não apaga o sentimento, antes o transforma numa presença diferente: a memória, a saudade, a persistência do amor mesmo nas ruínas. Mas ao mesmo tempo, o álbum abre espaço para a esperança de voltar a amar — seja reencontrando o amor perdido, seja descobrindo um novo caminho onde a dor se converte em renovação. Musicalmente, o álbum veste estas emoções com orquestrações grandiosas, atmosferas cinematográficas e vozes sensíveis que dão corpo a essa contradição. Porque, no fundo, desamar pode ser impossível – podemos deixar alguém, mas raramente deixamos de carregar o rasto desse amor, e é dessa marca que também nasce a coragem de amar novamente. 


O disco abre com A New Beginning, uma mensagem de união, esperança e reconstrução. É uma canção sobre a necessidade de recomeçar e fala do poder da empatia, da força que nasce quando duas pessoas escolhem caminhar juntas, mesmo em tempos de incerteza. Depois chega a vez de escutarmos Dreaming, uma canção profundamente pessoal e que reflete sobre uma relação vivida com alguém emocionalmente distante, frio e incapaz de ver a beleza e a profundidade do mundo. É o relato de um amor que existiu à superfície, onde o eu lírico tentava mergulhar enquanto o outro permanecia imóvel, alheio à intensidade do sentimento. A letra traduz esse contraste entre o sonho e a realidade, entre quem sente demais e quem não sente o suficiente. É, no fundo, o lamento de quem quis partilhar o infinito com alguém que só via o chão. É uma canção sobre a solidão que nasce mesmo dentro de um abraço, sobre a dor de perceber que nem todos têm a mesma capacidade de se maravilhar. 


O disco prossegue e em Happiness, o autor explora pela primeira vez arranjos orquestrais e percussões sinfónicas que, aliados à emoção melódica e à densidade harmónica, acabam por definir e estética de grande parte do álbum. É uma música que respira em camadas, entre a força épica da orquestra e a intimidade das guitarras e vozes.  Liricamente, Happiness é um retrato da contradição humana entre o desejo e a perda. Depois, I Wish oferece-nos o momento mais emocional e intenso do alinhamento; Aqui, o amor surge como tempestade, como força descontrolada que destrói e recria. A linguagem é simbólica e cheia de metáforas, debruçando-se sobre o desejo e a vulnerabilidade, sobre o impulso de querermos ser tocados por algo maior do que nós. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre o tempo, o esquecimento e a solidão.


Até ao ocaso do disco, Often a Bird é um hino à esperança que renasce das cinzas, falando de de resistência e de transformação. Save Your Soul, tema com uma cadência lenta, quase de marcha fúnebre, cria uma atmosfera densa e ritualística, fala da possibilidade de renascer, de libertar o espírito, de salvar a alma mesmo quando tudo parece perdido. Tear Us Apart mergulha nas ruínas do amor. É uma canção dura, visceral e honesta, que fala sobre o fim e sobre a dor que fica quando as palavras deixam de fazer sentido. Finalmente, When the Night Comes é um lamento e uma oração, um diálogo entre a dor e a memória. Fala de perda, de amor distante, de uma procura espiritual que se estende pela noite. O narrador vagueia por florestas e colinas, entre ecos e sombras, tentando reencontrar a figura amada, que se tornou símbolo de tudo o que se perde mas continua a viver dentro de nós. Espero que aprecies a sugestão...


Comentários