Jens Lekman – Songs For Other People’s Weddings

Oito anos depois do espetacular disco Life Will See You Now, o músico e compositor sueco Jens Lekman está de volta às luzes da ribalta com o sucessor, um alinhamento de dezassete canções intitulado Songs for Other People’s Weddings, que viu a luz do dia com a chancela da Secretly Canadian.



Intenso e sincero, Jens Lekman oferece-nos neste seu novo disco uma experiência sonora autobiográfica, que tem um lado extravagante muito interessante, que vamos, entretanto, dissecar. Para já, importa dizer que este seu novo catálogo de canções quase que merece ser saboreado como um daqueles bolos de noiva deliciosos, com a sua massa empilhada com as mais sumptuosas coberturas orquestrais que possas imaginar, acrescentando, no fim, generosas porções de doçura, que podem muito ser encarnadas na voz única do autor, que tanto pode soar descaradamente tagarela, como subtilmente sedutora. 


Se o amor foi sempre o chamariz do catálogo sonoro do sueco, então Songs for Other People’s Weddings atinge o seu âmago dessa filosofia interpretativa, num disco que teve a sua génese há cerca de vinte anos quando o artista começou a tocar em casamentos e incluiu no seu trabalho de estreia um tema intitulado If You Ever Need a Stranger (To Sing at Your Wedding), o mesmo título de um livro assinado pelo autor David Levithan, com quem trocou correspondência sobre essa temática. Essa obra foi escrita por Levithan também em dois mil e seis e conta a história de um um cantor de casamentos fictício, mas bastante conhecido.


Neste trabalho, em vez de apenas gravar as músicas que compôs para o livro, Lekman foi mais longe, explorando os pontos de vista das personagens, para criar um verdadeiro musical, com dezassete canções intensas e que exalam uma euforia indescrítivel, que é para ser ouvida em cerca de oitenta minutos sem pausas ou cortes, para poder ser devidamente apreciado. 


A história das canções, o dito musical, acompanha o arco do romance entre J, o alter ego de Lekman, e V. Conhecem-se num casamento onde todos os convidados estão vestidos como músicas e depois de tomarem um comprimido com sabor a laca, entregam-se à ligação lúdica que definirá a sua intimidade. Trata-se de estar apaixonado e, ao mesmo tempo, ser um observador externo do amor, participante e espectador, uma divisão que esbate a linha entre a vida e a música, algo que Lekman adora fazer. Quando V se muda para o estrangeiro, em busca de espaço, J começa a agendar concertos apenas para estar perto dela. Ao longo da obra, V é interpretada com mestria por Matilda Sargren, que Lekman recrutou através de uma orquestra jovem na sua cidade natal. V tem a última palavra sobre a relação de ambos, e J aprende que o propósito da sua música não é aprisionar a permanência, mas celebrar a ligação, por mais fugaz que seja.


A música deste álbum tem tantas nuances como o amor; ora leve e irreprimível, ora vibrante com uma carga erótica, ora hesitante ou questionador, aconchegante ou desolador. Os duetos desdobram-se em monólogos; o que era alegre regressa, pouco depois, como profundo. A narrativa de Lekman é excecionalmente detalhada e engraçada e o seu alter ego de cantor de casamentos proporciona-lhe um coro de personagens e ambientes cativantes para tecer uma dinâmica contínua e a constante evolução da relação entre J e V.


Assim, em GOT-JFK, por exemplo, enquanto se relatam eventos num casamento em Brooklyn, com subtil delicadeza, em The First Lovesong a voz de Lekman começa surpreendentemente grave e rouca, mas depois escutamos um refrão primorosamente arrebatador. Já Candy From a Stranger exala e pulsa como um perfume caro numa pista de dança quente, enquanto Speak to Me in Music exala a atmosfera de um bar de cocktails dos anos oitenta. Há tiques de INXS em With You I Can Hear My Own Voice, de Tori Amos com um toque de gospel em I Want to Want You Again, um electro-funk à la Prince em Wedding in Brooklyn e traços de Beach Boys em For Skye. Os momentos mais comoventes do alinhamento são frequentemente banhados pela transmissão de que amar é a mais pura alegria de viver, especialmente no hino trance On a Pier, on the Hudson.


Em suma, é apropriado recordar que Songs for Other People’s Weddings tenha surgido de uma troca de correspondência, já que o seu conteúdo tem essa forma e esse efeito algo epistolar e comunicativo. Cada canção é como uma carta que recolhe e transmite uma história única que Lekman recolheu e depois nos devolve de modo mais floreado, brilhante, inteligente, carinhoso e mais perspicaz. O amor é um espetáculo! Espero que aprecies a sugestão...



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