Damien Jurado – Private Hospital

O norte-americano Damien Jurado atravessa, claramente, desde há algum tempo para cá, uma das fases mais profícuas da sua já longa carreira. Depois de na primavera de dois mil e vinte e um ter editado o excelente registo The Monster Who Hated Pennsylvania, regressou, no verão do ano seguinte, com um novo disco também monstruoso, intitulado Reggae Film Star e em dois mil e vinte e três lançou Sometimes You Hurt The Ones You Hate, o décimo nono registo de originais deste músico e compositor natural de Seattle, um trabalho que, como é habitual neste artista, teve a chancela da Maraqopa Records, a sua própria etiqueta.


Damien Jurado — Little Saint


Agora, exatamente dois anos depois, Damien Jurado está de regresso com um novo compêndio de originais intitulado Private Hospital, uma coleção de onze músicas produzidas pelo próprio e que, contando com as contribuições especiais de Lacey Brown, Aura Ruddell, Zach Alva e Stevan Alva, proporcionam-nos, em pouco mais de trinta e dois minutos, um novo festim de indie pop rock luxuriante e vibrante, caraterísticas bem patentes logo em Celia Weston, o tema de abertura, um tratado de epicidade rugoso e simultaneamente luminoso, que disserta, com sagaz ironia e requinte, sobre o inevitável fim da nossa passagem por esta vida terrena.


Depois de tão imponente abertura, Private Hospital segue a todo o vapor no clima algo psicadélico e tremendamente cinematográfico de Here In The States, uma canção que crítica severamente o caos económico e social em que, na perspetiva do próprio, está mergulhado o país de origem de Jurado, evidenciando, desse modo, uma habitual faceta deste músico, relacionada com a crítica social, sempre sustentada por pontos de vista algo mordazes, mas certeiros e, muitas vezes, encarnados com uma elevada dose de ironia, como é uma vez mais o caso.


O clima mais soturno e ambiental de Hey Pauline, representa, com notável riqueza estilística, as mais recentes experimentações que Jurado, também um mestre da folk, tem colocado em prática, através de instrumentos que habitualmente só fazem parte do cardápio de quem se dedica a criar uma pop de cariz mais sintético. De facto, uma das grandes virtudes de Jurado tem sido, ultimamente, a capacidade de se adaptar aos novos desenvolvimentos tecnológicos e de alargar o seu cardápio instrumental na hora de entrar em estúdio, sem colocar em causa o adn essencial do seu catálogo. O piano eletrónico de forte travo cósmico que conduz Heaven's a Drag é outro exemplo prático desse modus operandi, em que os sintetizadores têm a primazia, mesmo que sejam depois afagados por alguns entalhes percussivos e pelo registo vocal ecoante adocicado de Jurado, num resultado final algo contemplativo.


Private Hospital prossegue em grande estilo em Howard Morton e na robustez de uma batida que sustenta um tema repleto de faustosos arranjos instrumentais, em que cordas, sopros e metais, se vão revezando entre si no predomínio e na liderança da indução de emotividade e charme e altivez a uma composição que balança numa fronteira muito ténue entre o clássico, o retro e o futurista. Depois, Pictures On The Run é um oásis de intimidade com um ligeiro travo a tropicália, um detalhe bastante curioso, mesmo que um sintetizador algo rugoso seja o seu grande sustento sonoro. Já Vampira encontra na mestria de alguns entalhes sintéticos a base que exala um clima amiúde sinistro e inquietante, como é apanágio de uma composição que versa sobre aquilo que uma pessoa sente e faz quando está sobre o efeito de um feitiço inquebrável e não se consegue livrar do mesmo. Private Hospital chega ao seu ocaso em grande estilo, com Call Me, Madam, um tema de forte travo vintage, potenciado por um processo de gravação eminentemente analógico, que coloca as fichas num clima ligeiramente jazzístico.


Em suma, importa dizer, uma vez mais e em jeito de conclusão, que estas novas canções de Damien Jurado, editadas exclusivamente em formato físico de livro, além do digital, sendo, como já vimos, instrumentalmente fartas e filosoficamente tocantes, comunicam com o nosso âmago, através de uma forma de compôr que, algures entre a penumbra e a luz e com uma sofisticação muito própria, é incubada por um dos maiores cantautores e filósofos do nosso tempo, um artista sem paralelo no panorama da indie folk contemporânea. Espero que aprecies a sugestão...



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