Ezra Furman – Goodbye Small Head

Em setembro de dois mil e dezoito foi disco de destaque nesta redação Transangelic Exodus, na altura o quarto registo de originais de Ezra Furman, um cantor e compositor norte-americano natural de Chicago e que aos trinta e dois anos assinava, na altura, o seu disco mais maduro e consistente. Transangelic Exodus era um trabalho tremendamente expositivo e resultou de uma entrega total de um músico a uma causa que era, sem tirar nem pôr, o querer mostrar ao mundo a sua identidade vincada, assumir-se perante nós como um ser humano com as suas fragilidades e os seus demónios, mas que também tinha um lado muito corajoso e interventivo.


Ezra Furman announces new album 'Goodbye Small Head'


Agora, mais de meia década depois, Ezra Furman, a agora artista, está de regresso ao nosso radar à boleia de Goodbye Small Head, o novo disco da autora, um alinhamento de doze canções que têm a chancela da insuspeita Bella Union e que sucedem o álbum All Of Us Flames, lançado em dois mil e vinte e dois.


Goodbye Small Head foi gravado com o produtor Brian Deck e Furman descreve o mesmo como doze variações sobre a experiência de perder completamente o controle, seja por fraqueza, doença, misticismo, BDSM, drogas, desgosto ou apenas por viver numa sociedade doente com os olhos abertos.


De facto, o conteúdo deste incrível tomo de canções profundamente pessoais, ressoam no nosso íntimo sem apelo nem agravo, mesmo que nos possa causar algum desconforto, o conteúdo filosófico das mesmas, o que não é o caso de quem assina esta crítica, felizmente, antes pelo contrário. Goodbye Small Head está, portanto, encharcado com histórias emocionalmente fortes, como é o caso, por exemplo, de Jump Out, tema que retrata um momento angustiante, em que alguém está dentro de um carro e salta dele, com o mesmo em movimento, porque se sente ameaçado por um condutor que demonstra ter uma conduta duvidosa, ou Grand Mal, composição em que furman exorciza alguns demónios e que impressiona pelo requinte das cordas e pela impulsividade do piano, intenso e melodicamente sagaz, com a profundidade lírica e a habitual expressividade vocal de Furman, a mostrarem-se ao mais alto nível. Depois, Power Of The Moon, oferece-nos o lado libertador e feliz do autor, numa canção que assenta numa batida sintética angulosa, que depois acama guitarras vibrantes com um travo surf e sessentista intensos. Num misto de luminosidade e rugosidade, a composição vai crescendo em arrojo e intensidade sentimental, sensações ampliadas pela filosofia do tema que aborda a felicidade pelo epílogo bem sucedido das contradições e das lutas existenciais inerentes ao processo de transformação que vivem todos aqueles que experimentam a mesma realidade pessoal que viveu na última década desta artista norte-americana.


Com uma energia, uma autenticidade e um carisma inconfundíveis, Goodbye Small Head oferece-nos uma viagem aventureira e até algo psicadélica, feita por um músico que sente finalmente ter força, amor próprio e vigor para encarar diferente o mundo novo que se abriu de par em par depois de concluído o processo de transformação pessoal que viveu, com a primazia da guitarras, o charme do piano e a insistência em utilizar entalhes sintéticos sem receios, a demonstrarem cabalmente que a carreira de Furman merece, claramente, uma projeção intensa, até porque temos aqui canções que podem fazer parte de um manual de auto ajuda para quem procura forças para superar os percalços de uma vida que possa estar emocionalmente destruída, ou necessita urgentemente de assumir uma outra identidade. Espero que aprecies a sugestão...



01. Grand Mal
02. Sudden Storm
03. Jump Out
04. Power Of The Moon
05. You Mustn’t Show Weakness
06. Submission
07. Veil Song
08. Slow Burn
09. You Hurt Me, I Hate You
10. Strange Girl
11. A World Of Love and Care
12. I Need The Angel


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