Trace Mountains – Into The Burning Blue

Sedeado em Nova Iorque, o projeto Trace Mountains liderado por Dave Benton, já tem sucessor para o extraordinário registo House Of Confusion, editado em dois mil e vinte e um. Into The Burning Blue é o nome do novo álbum do projeto, um alinhamento de nove canções produzidas por Craig Hendrix, misturadas por J. Ryan Francis e masterizadas por Ryan Schwabe, que chegou aos escaparates no dia vinte e sete de setembro com a chancela da Lame-O.


Trace Mountains Shares New Single 'Hard To Accept'


Quinto disco da carreira deste projeto Trace Mountains, Into The Burning Blue contém trinta e sete minutos efusiantes que deambulam entre a folk, o indie rock e a psicadelia e que são bem capazes de oferecer a este grupo nova iorquino um lugar de destaque no que concerne aos álbuns mais influentes, inspirados e inspiradores e acolhedores de dois mil e vinte e quatro. É um registo muito intimista e reflexivo, como se percebe logo em In A Dream, o tema de abertura, bastante inspirado no fim de uma relação amorosa do músico, que durou oito anos, uma rutura que deixou marcas em Benton. A canção ilustra um passeio noturno de bicicleta feito pelo autor, durante o qual, enquanto olha pelas janelas das casas por onde passa, reflete sobre o seu lugar numa América cada vez mais capitalista e isolada sobre si mesma.


Friend, a terceira composição do alinhamento de Into Burning Blue, uma canção que versa sobre a solidão e que conta com a participação especial de Craig Hendrix, dos Japanese Breakfast, que também produz o disco, como foi referido acima, cimenta essa tónica filosófica, enquanto mostra os melhores atributos sonoros do alinhamento, impressionando pelo modo como algumas cordas reluzentes são dedilhadas com belíssima complacência, juntamente com um perfil vocal emotivo e intimista e diversas texturas percussivas, mais ou menos implícitas.


Hard To Accept, o segundo tema do alinhamento de Into Burning Blue, é outra composição algo sombria, contemplativa e enigmática, caraterísticas habituais de algumas das propostas sonoras mais intimistas dos Trace Mountains e que colocam a herança da melhor pop oitocentista em declarado ponto de mira, nuance bem patente nas diversas camadas sintéticas planantes que, juntamente com uma guitarra com um efeito metálico curioso, sustentam uma canção que também não deixa de ser contagiante e exalar os cânones fundamentais daquele indie rock tipicamente americano e com uma certa tonalidade folk


Disco inspirado no modo como devemos optar sempre pela resiliência face ao desespero, este disco é, no fundo, uma espécie de odisseia romântica, materializada numa jornada longa e emocionalmente grandiosa, amiúde absurdamente épica até, porque embora se sustente em letras que parecem verdadeiros clichés, a verdade é que resultam e têm este efeito renovador e soporífero.De facto, quando escutamos o baixo avassalador de Crawling Back To You e os belíssimos arranjos de cordas das enleantes Ponies e Shelter Gone & Done, vivenciamos aquela sensação metafísica de conetividade entre o nosso âmago e a obra sonora. No meio, a ligar os dois pólos com astúcia, Dave Benton, que ocupa, assim, o nosso espaço e o nosso tempo com um indie rock que encarna uma verdadeira vibe psicadélica e, como se percebe, poeticamente melancólica. Espero que aprecies a sugestão...


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