Cerca de oito meses depois do excelente registo Wall Of Eyes, o segundo álbum do trio formado por Thom Yorke e Jonny Greenwood, o chamado núcleo duro dos Radiohead e Tom Skinner, baterista do Sons of Kemet, os The Smile estão de regresso aos discos com Cutouts, um alinhamento de dez canções gravado em Oxford e nos estúdios Abbey Road no mesmo período em que foi incubado Wall Of Eyes. Produzido por Sam Petts-Davies, Cutouts conta com arranjos de cordas assinados pela London Contemporary Orchestra e tem a chancela, como é habitual nos discos dos The Smile, da XL Recordings.

Não é qualquer banda que chega ao terceiro registo de originais já com a fama de ser um projeto influenciador e fundamental do universo sonoro em que se movimenta. Como é óbvio, nos The Smile, essa justa chancela deve uma enorme quota parte de responsabilidade à fama que os seus músicos grangearam nos projetos de onde provêm, mas a bitola qualitativa das suas propostas sonoras, já agora, avançando um pouco para o conteúdo de Cutouts e o grau de abrangência e ecletismo das mesmas é, neste caso em concreto, uma verdade indesmentível.
De facto, ao terceiro disco os The Smile continuam a alargar e a enriquecer o espetro do seu catálogo, olhando, desta vez, com maior gula para a eletrónica do que nos dois discos anteriores, muito marcados pela preponderância da secção percussiva, alimentada pelo baixo e pela bateria. Logo a abrir o registo, a dupla Foreign Spies, tema que versa sobre a aparência de um mundo perfeito e a realidade perturbadora que se pode esconder por trás dele e Instant Spalms, oferece-nos a já habitual fina e vigorosa interseção entre o orgânico e o o sintético, de modo exemplarmente burilado, mas com a segunda esfera de influência a assumir a primazia, em duas composições que carregam uma intrincada e sinuosa espiral de arranjos que, na canção de abertura, nos faz planar rumo a uma cosmicidade plena de lisergia e que, no segundo tema, já nos oferece algumas nuances mais consentâneas com territórios que olham para as cordas como fonte importante na indução de detalhes enriquecedores e fundamentais. Este percurso por um trilho sónico que também tem um forte cunho experimental, repete-se um pouco adiante, em Don't Get Me Started, tema em que o dedilhar tranquilo de uma guitarra elétrica e o registo vocal ecoante de Thom Yorke, originam um travo intimista e contemplativo irrepreensíveis, nuances que não resvalam nem vacilam quando alguns detalhes percussivos, um teclado divagante e diversas sintetizações se insinuam e oferecem alguma rugosidade e corpo à canção.
Com Zero Sum o disco arranca para uma direção eminentemente imediata e rugosa, como é norma, aliás, nas melhores propostas do histórico dos The Smile, colocando o jazz como pedra de toque de uma canção que é uma sátira à confiança que todos depositamos na informática e no mundo virtual, enquanto nos oferece quase três minutos de rock frenético, com uma personalidade eminentemente orgânica. Guitarras abrasivas e um baixo corpulento são os ingredientes essenciais de uma canção com um elevado travo punk, receita que se repete, pouco depois, em The Slip, outra composição com uma personalidade mais orgânica, roqueira e vigorosa, com a bateria, o baixo, uma guitarra abrasiva e diversos entalhes sintéticos a incubarem, no seu todo, uma angulosa espiral cósmica hipnotizante, com um elevado travo progressivo e em Colours Fly, outro tema repleto de nuances, pormenores, sobreposições e encadeamentos, num resultado final indisfarçadamente labiríntico e que, mesmo não parecendo, guarda em si também algo de grandioso, comovente e catárquico.
Estilisticamente, as maiores novidades que Cutouts nos oferece, em campos absolutamente díspares, encontram-se em Eyes & Mouth, uma injeção de pura adrenalina soporífera jazzística, que pisca o olho à tropicália, com uma angulosidade nada disfarçada e em Tiptoe, uma espécie de névoa celestial, com o falsete etéreo de Yorke a olhar para o interior da nossa alma e a incitar os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, enquanto o piano amplifica ainda mais este inusitado momento de agitação elegante e introspetiva.
Disco que mescla com mestria rock alternativo e eletrónica ambiental, verdadeiras traves mestras no adorno e na indução de cor e alma a um catálogo de canções de forte cariz intimista e que apenas revelam todos os seus segredos se a sua audição for dedicada, Cutouts agrega nas suas dez composições mais um fabuloso conteúdo sonoro, lírico e conceptual, que disserta com gula sobre cinismo, ironia, sarcasmo, têmpera, doçura, agrura, sonhos e esperança, ao mesmo tempo que catapulta os The Smile para um processo de criação cada vez mais livre de qualquer amarra ou constrangimento comercial, sem dúvida o modus operandi que mais seduz três músicos mestres a encarnar aquilo que o experimentalismo tem por génese: a mistura de coisas existentes, para a descoberta de outras novas. Espero que aprecies a sugestão...
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