Y La Bamba – Lucha

Quase meia década após o excelente Mujeres, e quatro anos do EP Entre Los Dos, o projeto norte americano Y La Bamba, liderado por Luz Elena Mendoza, está de regresso aos lançamentos discográficos com Lucha, um novo tomo de canções deste grupo sedeado em Portland, masterizado e produzido por Coco Hernán Godas e Ryan Neil Oxford e que chegou aos escaparates por estes dias através da Tender Loving Empire, a etiqueta de sempre dos Y La Bamba.


Y La Bamba Opens Up About Breaking Curses on “Lucha” – Rolling Stone


Elena Mendoza é uma ativista e uma poetisa ímpar, e obteve desde muito nova essas duas caraterísticas pessoais naturalmente, como não podia deixar de ser tendo em conta a sua ascendência e o país onde reside, mas também por ser alguém que se intitula como uma transmissora dos ecos que recebe dos espíritos dos seus ancestrais. Tomando esse ponto de partida filosófico e pessoal como fundamental no seu processo criativo, os movimentos migratórios da América Central para norte, em direção ao chamado El Dorado e o modo como essas comunidades se tentam inserir e viver no seio de uma suposta multiculturalidade que é cada vez mais conservadora e menos acolhedora, acaba por ser a grande inspiração para a sua música. Nela, através de alguns dos traços identitários da música tradicional mexicana, cruzados, de modo particularmente etéreo e contemplativo, com aspetos essenciais da folk do lado da fronteira onde reside, a autora reflete as lutas, as angústias, os anseios e as pequenas vitórias de uma comunidade que lucha diariamente para viver um sonho que, na verdade, acaba por se tornar, geralmente, um prolongar agonizante de um pesadelo que começou, logo à nascença, no país natal.


Assim, ao sétimo disco, Elena expôe-se uma vez mais, enquanto explora toda uma multiplicidade cultural e o modo como a mesma choca com a batalha diária que os gringos travam para serem aceites, ao mesmo tempo que uma pandemia reforça os sentimentos de isolamento e de rejeição. E, de facto, a sonoridade das onze composições do disco têm esse perfil etéreo, introvertido e intimista, que se opôe aquela alegria e vivacidade que carateriza a música tradicional mexicana e dos restantes países da América Central.


Logo a abrir o registo, em Eight, as cordas tensas, o piano enferrujado e a voz complacente de Elena, que clama por libertação (quiero vivir e gozar) induzem-nos nesta atmosfera muito peculiar e de algum modo sofrida. Depois, Dibujos De Mi Alma amplifica este olhar crítico e até algo impressionista e cínico que a autora faz sobre si própria, no modo como se deixa aprisionar por um amor que não é particularmente saudável, uma fórmula que, de certo modo, se repete em Hues, tema que conta com a participação especial de Devendra Banhart, um autor e compositor de ascendência venezuelana e natural de Houston, que ajuda Elena a criar um verdadeiro retrato musical vivo de tudo aquilo que esta artista única guarda dentro de si, uma materialização das suas emoções, que ganha impressionante clareza devido ao sedutor jogo vocal que se estabelece entre os dois protagonistas, nuance que amplia ainda mais o perfil luminoso e charmoso de uma canção lindíssima. Collapse oferece-nos um clima um pouco mais sintético e caliente, mas mantém a aposta num registo poeticamente intenso, com a cover tremendamente orgânica e vintage do clássico de Hank Williams, I’m So Lonesome I Could Cry, a ter neste disco o papel central de exorcização de algumas memórias da infância que ainda dilaceram a autora, um tema também é muito querido na discografia de Y La Bamba.


Mais um intrigante exemplo sonoro de mescla de diversas culturas, num pacote seguro e familiar, Lucha oferece a Luz outra oportunidade de vincar, uma vez mais, a sua naturalidade, personalidade e as influências americanas que carrega, mas sempre com um toque da personalidade mexicana. Nestas suas novas canções ela continua a contornar todas as referências culturais que poderiam limitar o seu processo criativo para, isenta de tais formalismos, não recear misturar tudo aquilo que ouviu, aprendeu e assimilou e fazê-lo com enorme mestria e um evidente bom gosto, ao mesmo tempo que reflete com indisfarçável temperamento sobre si própria. De facto, esta vontade de conjugar o melhor da sonoridade de realidades tão díspares, a folk e a música tradicional e, ao mesmo tempo, criticar a raíz das mesmas, não é inédita, mas a forma inspirada como o demonstra, fazem dela e dos Y La Bamba uma referência atual, não só na pop, como na world music atual. Espero que aprecies a sugestão...



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