First Two Pages Of Frankenstein é o curioso título do novo disco dos norte-americanos The National, um registo que quebra um longo hiato da banda nova-iorquina, que se tornou ainda mais angustiante para os fãs do projeto quando Matt Berninger confessou, numa entrevista recente, que durante a pandemia viveu numa espécie de bloqueio criativo e que esse facto e a existência de alguns projetos paralelos nas vidas dos vários músicos do grupo, poderia colocar em causa o futuro dos The National. Seja como for, First Two Pages Of Frankenstein ganhou vida, contendo onze canções no seu alinhamento e conta nos seus créditos com as participações especiais de nomes tão proeminentes como Taylor Swift, Sufjan Stevens e Phoebe Bridgers.

Os The National são um dos nomes maiores do indie rock contemporâneo e um disco novo do projeto causa, como é normal, justificado alvoroço e enormes expetativas relativamente ao seu conteúdo. A nossa redação não é indiferente a essa febre saudável e, na verdade, foi com bastante atenção e devoção que se embrenhou no conteúdo sonoro de First Two Pages Of Frankenstein, uma sofreguidão inicial que acabou por ser, de certo modo, defraudada pelo conteúdo do registo, mesmo após várias audições que, diga-se, foram sempre dedicadas, atentas e as últimas já algo esforçadas.
De facto, o nono disco da carreira dos The National confirma a perceção de que o grupo nova iorquino entrou numa espiral decadente e algo repetitiva, principalmente desde Sleep Well Beast, o álbum que viu a luz do dia em dois mil e dezassete e que levou definitivamente a banda para territórios sonoros menos imediatos e orgânicos, com os sintetizadores e outros arranjos e instrumentos inéditos, a fazerem, desde aí, cada vez mais parte do ideário sonoro de um grupo que acabou por cair, percebe-se agora, na redudância convencional ou na repetição aborrecida.
É justificado o elevado grau de exigência relativamente aos The National. Quando se gosta, quer-se receber muito em troca e se tal não sucede, até porque, como já referi, as tais expetativas são imensas, maior é a frustração pela ausência de correspondência, até porque, a cada novo lançamento deste grupo, mais do que perceber com clareza aquilo que une o alinhamento à herança da banda, convém olhar com atenção para os pontos de ruptura e de diferenciação e em First Two Pages Of Frankenstein, aquilo que se observa é, basicamente, uma sequência algo arrastada, cansada e entediante de composições quase sempre cinzentas e sem alma, assentes em trechos poéticos algo desconexos e instrumentações amiúde demasiado intrincadas para conseguirem oferecer uma audição prazeirosa e aconchegante.
Não se pense, no entanto, que First Two Pages Of Frankenstein não tem momentos altos e a nossa redação até destaca três. Um deles é Tropic Morning News, tema grandioso, que se acama numa inédita batida sintetizada e que se vai espraiando durante mais de cinco minutos, à boleia de várias nuances instrumentais, firmadas nas guitarras e nas teclas do piano e em diversos dos atuais entalhes entre eletrónica e rock alternativo, uma opção estilistica que incute na canção luminosidade e cor, aspetos algo inéditos no resto do disco, diga-se. Depois, a delicadeza introvertida de New Order T-Shirt e o hipnotismo indie de Eucalyptus, uma canção sobre o modo como um casal divide a sua fortuna após a separação, ajudam a induzir alguma aúrea de sentimentalismo, sensibilidade e até de uma certa pureza e requinte, ao âmago deste disco.
Como foi referido logo no início desta crítica, são de relevo os nomes de outros artistas que colaboram com os The National neste álbum. Aliás, tal listagem até é outra nuance que também ajudava a prever uma elevada bitola qualitativa no alinhamento. No entanto, num grupo em que esteve sempre algo presente a participação de vozes secundárias femininas, que até assumiram a primazia interpretativa e delegaram, em muitos casos, Matt Berninger para um papel de coadjuvante, algo difícil de se imaginar numa banda que sempre foi sonoramente tão íntima e dependente da sua voz principal, a presença, quer de Taylor Swift, quer de Phoebe Bridgers foi, na nossa óptica, dececionante, já para não referir o papel quase inexistente de Sufjan Stevens em Once Upon a Poolside. Nas canções Your Mind Is Not Your Friend e This Isn’t Helping, Phoebe Bridgers poderia ter tido a liberdade de ser mais contundente no modo como expõe vulnerabilidades individuais. Em Alcott, Taylor Swift mostra toda a beleza da sua voz, mas com uma simplicidade tal que acaba por toldar, de algum modo, a grandiosidade que a temática da canção pressupõe.
Devemos ser justos e referir de modo elogioso que First Two Pages Of Frankenstein é mais uma tentativa honesta de criar um exercício comunicacional confessional particularmente explícito relativamente às experiências e vivências de Matt Berninger, que procura, assim, estabelecer novamente uma conexão muito direta entre o seu pensamento e a nossa intimidade. Mas o modo como sonoramente o faz, secundado pelos restantes quatro elementos do grupo, acaba por ser pouco convidativo, porque este é um disco com uma complexidade tal, que acaba por abafar a sempre desejável acessibilidade quando se quer comunicar ideias, experiências e relatos que, para a completa absorção, procuram atingir de modo certeiro a intimidade e o lado mais sentimental de cada um. Seja como for, First Two Pages Of Frankenstein, não deixa de ser por causa desse falhanço mais um interessante legado que os The National deixam para a história do indie rock contemporâneo, mesmo que, desta vez, o estreitar de laços com o ouvinte não seja tão intenso e não fique demonstrado de modo tão impressivo como já sucedeu antes, a ímpar capacidade eclética que este grupo certamente ainda tem de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo e verdadeiros hinos de estádio e sem defraudar o conceito central que levou estes cinco músicos a juntarem-se, há mais de duas décadas, para compôr. Espero que aprecies a sugestão...
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