Oriundos de Antuérpia, os dEUS de Tom Barman fazem parte da minha existência há quase três décadas e são fortes os laços que nos unem e o nível de afinidade que persiste entre grupo e fã convicto e dedicado, como acho que sou relativamente a este coletivo belga. E. de facto, dez anos depois de Following Sea, o último registo de originais dos dEUS, já era mais do que altura de saldar contas, reavivar memórias e paixões e de voltar a incendiar o peito ao som de novas canções assinadas por um coletivo que, devido à consistência e linearidade sonora, merece todos os elogios que possam ser dispensados.

Dois mil e vinte e três é, então, o ano desse acerto ao som de How To Replace It, o novo álbum do grupo belga que mantém da formação original apenas Tom Barman e Klaas Janzoons, aos quais se juntam atualmente o baterista Stéphane Misseghers, o baixista Alan Gevaert e o guitarrista Mauro Pawlowski. Do seu alinhamento constam doze canções, que com requinte, charme e algum lacrimejante saudosismo, diga-se, plasmam muito do melhor adn enérgico, vibrante e angulosamente sedutor da banda de Antuérpia. De facto, seja no vigor de temas como Must Have Been New ou Man Of The House, composição conduzida por um baixo incrível, na luminosidade melancólica de Faux Bamboo, na sofisticação das sintetizações que planam por um baixo e uma guitarra subtilmente imponentes em Why You Think It Over (Cadillac), ou no cariz mais intimista e reflexivo de 1989, composição que impressiona pelo modo como Tom Barman pôe à tona tiques e timbres que nos recordam nomes ímpares como Leonard Cohen, Stuart Staples ou Matt Johnsson, enquanto deambula dramaticamente pelo canto e o chamado spoken word, um registo que de algum modo se repete em Dream Is A Giver, este disco é um belíssimo tratado de rock clássico, que acaba por homenagear a melhor indie pop das últimas três décadas. E fá-lo no modo como assegura o arquétipo de praticamente todo o alinhamento com um baixo encorpado, guitarras abrangentes, repletas de efeitos planantes, que tanto podem abarcar detalhes típicos do garage, como do rock mais progressivo e sintetizadores sempre afoitos a enlear-se sorrateiramente, ou de modo mais clarividente, em melodias que têm, sem sombra de dúvida, nas cordas a sua grande força motriz.
How To Replace é, sme apelo nem agravo, um álbum grandioso, minuciosamente calculado e robusto, potenciando ao máximo aquela subtileza cândida e fortemente sentimental que foi sempre imagem de marca dos dEUS e para a qual sempre contribuiu também, em elevada medida, a voz inconfundível de Barman, que, tal como sucede com a componente instrumental das canções, sabe sempre como se intrometer nos nossos ouvidos. Um trabalho que não defraudará os seguidores mais fiéis dos dEUS e que dá crédito à banda belga para se manter à tona numa posição de relevo do universo indie e alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...
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