Já passaram quatro anos desde que Josh Tillman nos ofereceu o extraordinário registo God's Favorite Costumer, um dos melhores discos de dois mil e dezoito para esta redação, mas parece que foi ontem, tal é a insistência com que esse registo vai rodando por cá. Foi um trabalho concebido por um dos artistas mais queridos deste espaço de crítica musical, sempre absorvido nos seus dilemas, vulnerabilidades e inquietações pessoais, enquanto ensaia, em cada álbum, uma abordagem tremendamente empática e próxima com o ouvinte, sem se deslumbrar e perder a sua capacidade superior de criar canções assentes num luminoso e harmonioso enlace entre cordas e teclas, que dão vida a temas carregados de ironia e de certo modo provocadores.

De facto, foi isso que Father John Misty fez em Chloë And The Next 20th Century, o seu novo registo de originais, gravado na segunda metade de dois mil e vinte, em pleno período de confinamento. Neste que é o quinto álbum da carreira, o autor e compositor deu mais uma guinada conceptual e até sonora no seu catálogo, contando, para isso, com a ajuda preciosa de Drew Erickson nos arranjos, de Jonathan Wilson na produção e Dave Cerminara, na mistura, além dos músicos Dan Higgins e Wayne Bergeron, entre outros.
Estilistica e filosoficamente, Chloë and the Next 20th Century tem em declarado ponto de mira o período aúreo do cinema americano, além do catálogo de músicos míticos como Randy Newman e Harry Nilsson, com variadíssimas canções, como Chloë ou Q4, só para citar dois exemplos, a colocarem-nos imediatamente numa mesa redonda de uma sala fumarenta, mesmo em frente a um palco escuro onde o músico, vestido impecavelmente, nos oferece momentos sonoros esplendorosos e únicos, suportado por uma orquestra afinadíssima, repleta de metais e cordas e liderada por um piano exemplar.
Os laivos musicais de excelência que abundam neste álbum proporcionam, entre muitas outras sensações que só a vivência da audição consegue descrever, beleza e melancolia ímpares, como é o caso de The Next 20th Century. E o alinhamento tão depressa abraça a bossa nova, como no caso de Olvidado (Otro Momento), como o charme de uma valsa, radiosamente plasmada em (Everything But) Her Love, ou seja, consegue abraçar, quase sem se notar, universos sonoros tão díspares e heterogéneos e que parecem conjurar entre si para incubar uma trama de caraterísticas únicas e que merecem, também por isso, dedicada audição.
Chloë And The Next 20th Century é, pois, obra criativa única e indispensável, incubada por um autor que gosta de cantar e contar na primeira pessoa e assumir, ele próprio, o protagonismo das histórias que nos relata, enquanto prova ao mundo inteiro, mais uma vez, que é imcomparável a recriar diferentes personagens, cenas e acontecimentos, geralmente sempre dentro de um mesmo território criativo, neste caso o cinema. Espero que aprecies a sugestão...
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