Quase dois anos depois de Plum, um dos melhores discos de dois mil e vinte para a nossa redação, os Widowspeak estão de regresso aos lançamentos discográficos. O novo registo da dupla formada pela cantora e escritora Molly Hamilton e o guitarrista Robert Earl Thomas, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas estabelecidos na cidade que nunca dorme há já algum tempo, chama-se The Jacket, tem dez canções e viu a luz do dia com a chancela da insuspeita Captured Tracks.

Mestres na arte da personificação de um som inconfundível em que eletrónica, pop, folk e rock se confundem com um inebriante charme, muitas vezes até ostensivo, os Widowspeak contam-nos, neste The Jacket, uma curiosa história. O alinhamento do disco pretende contar-nos a odisseia de uma banda fictícia que sai da sua zona de conforto, que assentava em pequenos concertos baseados em covers, para passar a apostar na escrita e composição de originais. Para trazer até nós essa trama com clareza, os Widowspeak optaram pela busca de climas mais soturnos e intimistas, depois da ode luminosa que foi Plum, que também tinha um propósito filosófico, nesse caso fazer uma sátira contundente ao materialismo e ao capitalismo, mas também ao amor na era digital.
E essa alegoria materializa-se, nas dez canções do álbum, num registo interpretativo que explora, quase sempre com a ajuda das cordas do baixo e da guitarra, a mescla de alguns cânones fundamentais do melhor rock setentista, mas não só, com a graciosidade única da folk-pop atual, servindo a eletrónica para apimentar e adornar as canções e potenciar a sua identidade declaradamente vintage, num resultado final que tem aquele clima eminentemente blues e jazzístico em declarado ponto de mira.
O meditativo piano que adorna Everything Is Simple, o andamento rítmico fumarento de Slow Dance, a rugosidade metálica da guitarra que deambula por cima da bateria em The Drive e o espírito noventista e garageiro de Salt, apresentam-nos, por um lado, o elevado cardápio de influências que atiça a dupla e, por outro, a homogeneidade com que conseguem agregar esse catálogo e produzir uma identidade única, não só relativamente ao ambiente sonoro de The Jacket, um disco que sai airosamente do risco que contém e que se define numa nova proposta instrumental e lírica para a banda, mas também, e de um modo mais amplo, no que concerne ao próprio catálogo da dupla, que ganha uma maior versatilidade com este alinhamento, sem descurar a sua essência.
No início da carreira, há já mais de uma década, os Widowspeak começaram por se alimentar à sombra daquela pop de finais dos anos oitenta muito sustentada por elementos sintetizados, mas não restam dúvidas que foi nas construções musicais lançadas há cerca de três décadas que melhor navegaram, principalmente a partir de All Yours (2015), nomeadamente a dream pop e a psicadelia sessentistas. Em Plum acrescentaram ao seu catálogo elementos sonoros muito direcionados para um jogo de cintura eficaz entre sintetizadores e guitarras e agora, um pouco mais hipnóticos, mas plenos na exploração das suas virtudes meditativas e psicadélicas, mesmo que mais minimalistas que o habitual, centraram-se numa guitarra encharcada de blues e nas diferentes nuances que a mesma pode criar, no momento de definir o arquétipo sonoro das canções, para nos oferecer um registo intenso, belo e maduro. Espero que aprecies a sugestão...
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