Galo Cant’Às Duas - Água Ardente

Moita, no concelho de Castro Daire, é um ponto geográfico nevrálgico fulcral para o projeto Galo Cant’às Duas, uma dupla natural de Viseu, formada por Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre e que tocou pela primeira vez nesse local, de modo espontâneo, durante um encontro de artistas. Nesse primeiro concerto, o improviso foi uma constante, com a bateria, percussões e o contrabaixo a serem os instrumentos escolhidos para uma exploração de sonoridades que, desde logo, firmaram uma enorme química entre os dois músicos.


Água Ardente é o novo álbum dos Galo Cant'Às Duas - Threshold Magazine


Inspirados por esse momento único, Hugo e Gonçalo arregaçaram as mangas e há cerca de meia década e começaram a compor, ao mesmo tempo que procuravam dar concertos, sempre com a percussão e o contrabaixo na linha da frente do processo de construção sonora. A guitarra e o baixo elétrico acabam por ser dois ingredientes adicionados a uma receita que tem visado, desde Os Anjos Também Cantam, o disco de estreia do projeto editado na primavera de dois mil e dezoito, a criação de um elo de ligação firme entre duas mentes disponíveis a utilizar a música como um veículo privilegiado para a construção de histórias, mais do que a impressão de um rótulo objetivo relativamente a um género musical específico.


No início de dois mil e dezanove, cerca de ano e meio depois dessa estreia auspiciosa, os Galo Cant’Às Duas deixaram a guitarra em casa, olharam com maior gula para os sintetizadores e colocaram nos escaparates o sempre difícil segundo disco, um trabalho chamado Cabo da Boa Esperança, que marcou, claramente, um rumo mais abrangente, ousado e criativo para a dupla.


Agora, já em dois mil e vinte e dois, os Galo Cant’Às Duas voltam ao nosso radar por causa do seu terceiro álbum, um trabalho intitulado Amor em Água Ardente e do qual temos vindo a divulgar alguns dos seus momentos maiores, uma saga que nos tem feito descobrir um alinhamento de nove canções que é, claramente, um verdadeiro cocktail pop, mas que também conserva no seu âmago alguns dos cânones fundamentais do melhor rock alternativo que se vai fazendo por cá.


Água Ardente é, de facto, um registo repleto de sinuosidades rítmicas, como a nota de lançamento do disco tão bem descreve, um tomo de composições que mostram a dupla a manusear com uma mestria e uma sagacidade ainda superior ao registo interpretativo dos dois discos anteriores, o tradicional formato canção, mostrando que é possível, sem perder o norte, mesclar o experimental e o popular. A música deles é como a famosa frase de Fernando Pessoa sobre a Coca-Cola - mas aqui, depois de se entranhar, não se recomenda qualquer tipo de consumo moderado. Quanto mais ouvimos estas canções mais nos deliciamos com elas e mais percebemos que o Gonçalo Alegre e o Hugo Cardoso vieram mesmo para ficar.


A participação especial de Chullage em Selfish Boy é um bom exemplo desta salutar ausência de amarras e arquétipos que foi, sem dúvida, permissa dos Galo Cant’Às Duas no momento de entrada em estúdio e temas como Danças de Festival, um safanão de cor e alegoria, ou Coragem, um portento de elasticidade instrumental, são outras amostras felizes da superior mestria e qualidade interpretativa de um projeto que nos convida a embarcamos também numa nostálgica e bem sucedida viagem ao melhor indie pop rock noventista do século passado, cujos alicerces nomes tão proeminentes como os Yo La Tengo ou os Pavement ajudaram a cimentar. Confere...



 


 

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