Alt-J (∆) - The Dream

Um dos grandes lançamentos discográficos deste início de dois mil e dois é The Dream, o novo disco dos os  Alt-J (∆) de Joe Newman, Gus Unger-Hamilton e Thom Green, um registo de doze canções que entrou em alta rotação na nossa redação há alguns dias e que tem, de facto, impressionado, pela sua riqueza detalhística, pela diversidade de nuances, pela própria filosofia lírica e estilística subjacente ao registo e, acima de tudo, pela emotividade e assombro que a sua audição dedicada suscita.


Arte SonoraAlt-j Mostram “Get Better” | Arte Sonora


Com a chancela da Infectious Music, The Dream é um álbum inspirado em histórias e eventos relacionados com o mundo do crime que também existe em Hollywood, mas também está muito marcado pelo modo como a banda viveu a situação pandémica que todos conhecemos e que, de acordo com Joe Newman, o fez querer ser mais responsável e adulto no modo como escreve as letras das suas canções que, continuando a ser sobre eventos fictícios, acabam por ter paralelo com algumas das suas vivências mais recentes.


Uma outra curiosidade que a história deste disco transporta consigo, é algo que se percebe e entende através da sua audição atenta. Conclui-se facilmente que muitas canções resultam de sobreposições, encadeamentos e uniões de diversos sons, inclusive vocais (o alinhamento está repleto de gravações de diálogos e vocalizações retirados, na sua maioria, de filmes), que muitas vezes não estão em harmonia, mesmo em termos de volume; Tal explica-se, obviamente, através da superior qualidade interpretativa dos elementos do grupo, mas, acima de tudo, porque muitas destas canções resultaram de um processo demorado e paciente de captura e aproveitamento de trechos de gravações que foram sendo feitos pelos Alt-J (∆), nos últimos anos. Por exemplo, o segmento de guitarra que se escuta em Bane, o espetacular tratado de pop eletrónica experimental que abre o disco, já foi composto por Newman em dois mil e doze, os coros foram pensados dois anos depois e a estrutura lírica da canção tem dois anos de existência.


The Dream é, pois, um disco que sendo tematicamente corajoso e sonoramente muito complexo e encantador, desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, plasma, no fundo, e em jeito de ponto alto,  toda a evolução que o projeto foi conseguindo obter na carreira, que não deixou de em alguns momentos, nomeadamente em álbuns como Reduxer ou An Awesome Wave, de soar a completas reestruturações, tendo em conta as respetivas propostas anteriores, mas que plasma, em suma, todos os atributos, de modo majestoso e impressivo, que o grupo foi adicionando e burilando no seu catálogo, sem renegar a sua identidade sonora distinta.


Além do tema de abertura já referido, o fabuloso single U&ME, uma composição intrigante, intensa e sedutora, com um vasto arsenal instrumental a suportar uma eufórica e intensa história de amor, que pode muito bem ser aquela que une os três membros desta espetacular banda de Leeds, é um claro exemplo de todo este portentoso refinamento. Depois, canções como Get Better, uma composição que resultou da união de duas, uma delas um trecho de um tema que Newman criou, há três anos, para a sua companheira, Darcy Wallace, a outra uma sequência melódica incubada pelo mesmo durante o confinamento, enquanto refletia sobre as vítimas desta pandemia e a dor daqueles que perderam alguém querido, a robustez progressiva e com um travo até algo punk de Hard Drive Gold, a sombria solidez de Losing My Mind, a singela cândura que é trespassada a fundo por cascatas de violinos em Philadelphia, ou a ímpar delicadeza de Delta, servem apenas para apimentar ainda mais a espetacular sensação que é perceber que ouvir The Dream é provar que o inesperado está sempre ao virar da esquina. Vive-se numa permanente tensão de nunca se saber que som, detalhe, nuance, efeito, ritmo ou arranjo vem no segundo seguinte e essa é, na verdade, a melhor sensação que se pode receber de um trabalho único que foi feito com vasto leque de referências. Da pop ambiental contemporânea ao art-rock clássico, passando pelo R&B, The Dream é uma epopeia onde se acumula um amplo referencial de elementos típicos desses diversos universos sonoros e que se vão entrelaçando entre si de forma particularmente romântica, cinematográfica e até, diria eu, objetivamente sensual. Espero que aprecies a sugestão...


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