Yann Tiersen – Kerber

Criado e gravado no The Eskal, o estúdio que construiu em Ushant, a ilha onde mora e que se localiza a trinta quilómetros da costa oeste da Bretanha, no Mar Céltico, Kerber é o nome do novo disco do compositor francês Yann Tiersen, um compêndio sonoro com a mesma designação de uma capela situada nessa mesma ilha e, no fundo, um disco conceptual porque mapeia mapeia sonoramente a paisagem que circunda a casa do autor.


With “Kerber”, Yann Tiersen switches a little more towards electronics


Kerber é um verdadeiro oásis de beleza e melancolia, neste presente tão inquietante que nos assola, um mundo eletrónico de magníficas texturas, altamente envolvente e cuidadosamente construído. Nele, as teclas penetrantes do piano fundem-se com paisagens sonoras ondulantes, à medida que Tiersen explora as possibilidades criativas que um ano de isolamento lhe proprocionou, ainda por cima numa ilha em que o impossível é conseguir viver de um modo frenético ou massificado.


Kerber é, pois, o retrato de uma ilha em sete telas sonoras lindíssimas legendadas em bretão, mas também a almofada reconfortante que o autor criou para se recostar enquanto usufrui de uma paisagem única e que, pelos vistos, é incrivelmente capaz de trazer à tona uma diversidade rica e infinita de ideias musicais.


Logo a abrir o disco, Kerlann funicona como uma espécie de apresentação do esqueleto de Kerber e, no fundo, como uma espécie de personificação do corpo principal da própria ilha. Depois, em Ar Maner Kozh, através do movimento oscilante que os detalhes eletrónicos fazem em redor de um acordeão sublime e um registo percurssivo sagaz e no modo como em Kerdrall piano e sino nos afagam, de modo simples mas muito eficaz, visualizamos, caso queiramos e com notável grau de impressionismo, as diferentes paisagens que dão forma ao local que serviu de inspiração ao registo. Os tambores que mal se ouvem em Ker al Loch e o piano que neste tema flui como um curso contínuo de água, com reflexos e tons que se alteram pela ação de impressionantes sons modulares que agitam a sua textura com brilho repentino, podem muito bem servir para dar vida à cadência da luz que ilumina La Jument, o farol a oeste de Ushant e um dos ex-libris da ilha.


Registo claramente instintivo e onde o piano, como seria de esperar, é rei e senhor, Kerber é um notável marco de evolução compositória e sinfónica na carreira de Yann Tiersen. É um disco em que a tradicional definição de música clássica pode ser utilizada, sem receio, para embrulhar o seu conteúdo, mas que, no interior, esconde uma diversidade enorme de entalhes sintéticos e percurssivos que encontram eco na melhor eletrónica atual. É, em suma, um poderoso retrato de um homem em sintonia perfeita com a natureza e a sua beleza rude, oferecendo-nos uma visão única desta simbiose perfeita. Espero que aprecies a sugestão...



Comentários