Low – Hey What

Três anos depois do excelente Double Regist, os Low de Alan Sparhawk, Mimi Parker e Steve Garrington voltam a impressionar-nos com a sua pop emotiva e sedutora à boleia de Hey What, o décimo terceiro disco deste grupo norte americano oriundo de Duluth, no Minnesota e que há cerca de três décadas nos oferece um maravilhoso cardápio que é, no seu todo, um marco significativo na carreira de um projeto ímpar do indie rock e da dream pop contemporânea.


Low's 'Hey What' Review: A Seamless Mix of Nighmarish and Romantic


Hey What é um registo que, na sua essência, está assente num som negro, mas potenciador no modo como suscita a vinda à tona de todos nós alguns dos receios, dores e angústias que guardamos no nosso âmago, de forma mais ou menos disfarçada. Em Days Like These, por exemplo, a limpidez do registo inicial à capella da dupla Alan e Mimi, agarra-nos, desde logo, a uma enganadora luminosidade, que rapidamente resvala para uma vasta míriade de ruídos, que em vez de terem um efeito abrasivo e repugnante, são facilmente entendidos como traves mestras de uma inesperada luz e positivismo.


De facto, esta bem pensada e criativa dicotomia arquitetada pelos Low, esconde, no seu seio, uma pancada seca e certeira numa pop paciente e charmosa e que, escutada com a merecida devoção, coloca em causa todos os cânones e normas que definem alguns dos pilares fundamentais da nossa interioridade. E, apesar de a acima referida Days Like These ser, talvez, a composição que melhor define Hey What, logo a abrir o disco, em White Horses, percebemos o que nos espera ao sermos agitados por um pendor abrasivo e até algo inquietante, que não é mais do que um esplendoroso dinamismo, feito com uma abordagem lânguida e, por incrível que possa parecer, harmoniosa, porque, na verdade, nos mostra o rock, uma forma de criação musical essencialmente agreste e ruidosa, na sua essência mais pura.


Hey What avança e, à boleia do travo maquinal cavernoso de I Can Wait e, um pouco adiante, da cosmicidade de All Night, quem conhece profundamente o cardápio dos Low vai rapidamente sentir-se nostálgico porque irá recordar o conteúdo de Things We Lost In The Fire, o clássico que a dupla lançou no início deste século e que continha uma beleza discreta e uma inconfundível tristeza sonora. Depois, em Disappearing, avançamos até dois mil e quinze e ao universo de Ones and Sixes, um trabalho que foi um dos melhores desse ano para a nossa redação e que, parecendo amiúde, desesperadamente assustador e claustrufóbico, como um fantasma apaixonado a tentar romper um véu, não deixava, no meio de tamanha hostilidade, de esconder uma lindíssima fidelidade canónica a uma espécie de lentidão melódica. A etérea Don't Walk Away, uma música que começa sem bússola, serpenteia por toda a parte e termina num lugar que é surpreendente e desconhecido e There Is A Comma After Still, um tratado esotérico, semelhante a um sinal de rádio interceptado de uma raça alienígena distante, amplificam ainda mais esta impressiva filosofia interpretativa que, no fundo, reescreve, com uma nova contemporaneidade, a linguagem essencial de um espetro do rock que, parecendo, à primeira vista, eminentemente sombrio e negativo, não deixa de, no fundo, desfilar emoções e jorrar sentimentos por todos os seus acordes, mesmo os menos percetíveis, podendo-se mesmo falar em poros, porque este é um modus operandi que transmite sensações físicas tácteis, nem sempre passíveis de apurado controle pelo nosso lado mais racional.


Hey What e os seus antecessores, quer Ones And Sixes, quer o mais recente Double Negative, são, em jeito de conclusão, uma feliz personificação da evolução mundial nos últimos anos. Este planeta foi-se tornando mais hostil e inquietante, mas sem deixar de nos proporcionar eventos esperançosos e a música dos Low também seguiu essa demanda dualista com uma quase impercetível serenidade. Espero que aprecies a sugestão...


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