O indie rock experimental abrasivo, contundente, instigador e cheio de personalidade dos Liars é uma enorme lufada de ar fresco neste verão algo atípico, materializada em The Apple Drop, o novo disco do projeto assinado por Angus Andrew, que para dar vida a este esplendoroso alinhamento de onze canções abrigadas pela Mute, contou com a ajuda do baterista de jazz Laurence Pike, do multi-instrumentista Cameron Deyell e da sua esposa Mary Pearson Andrew, que o ajudou a escrever as letras dos temas.

The Apple Drop é, de facto, o disco mais esplendoroso e simultaneamente acessível da carreira dos Liars. Nele, o projeto que é a solo desde dois mil e catorze, altura em que o australiano, radicado em Nova Iorque, Angus Andrew tomou definitivamente as suas rédeas, podemos contemplar um krautrock que mistura eletrónica com rock alternativo, funk, noise rock, avant garde, post punk e quase todas as outras sonoridades que possas imaginar e que cábem num espetro sonoro que podia muito bem personificar a mescla perfeita entre os Radiohead pós Kid A e a melhor herança dos alemães Kraftwerk.
Num álbum com uma base sonora bastante peculiar e climática, se canções como a cinematográfica From What The Never Was, uma banda sonora perfeita para um passeio no espaço e King Of The Crooks, no oferecem uns Liars luminosos e subtilmente românticos, porque são aconchegantes limbos de delicadeza, proporcionados, na primeira, por um baixo omnipresente, que abraça com igual acerto e ternura cordas eletrificadas um acústicas e, na segunda, no mesmo registo melancólico, por uma diversidade maquinal muito coerente, já composições do calibre de Big Appetite, um edifício melódico onde o caos parece fazer todo o sentido e se torna impressionante o modo percetível como podemos discernir quase todo o arsenal molecular que sustenta um rock imperialmente cavernoso, ou o modo como o piano e a voz são repentimente impelidas para a eterna cosmicidade celestial em Start Reach, assim como o travo selvagem e deliciosamente punk das cordas e do trompete de My Pulse To Ponder e a cópula algo macabra que uma assíncopada bateria aceita estabelecer com um sintetizador na setentista Leisure War, oferecem-nos aqueles Liars de punho simultaneamente cerrado e acenador. Esta abrangência, que parece sempre, ao longo do disco, estranhamente fluída, intuitiva e natural, prova a incomparável mestria e a hipnótica subtileza de um alinhamento que, no fundo e de um modo geral, mesmo que possa ser subdivido nos dois grandes espetros acima descritos, assenta muita da sua riqueza na dicotómica e simbiótica relação entre o fuzz da guitarra e vários efeitos sintetizados arrojados, com uma voz peculiar e muitas vezes manipulada a rematar este ménage espetacular.
Poucas bandas se transformaram tanto ao longo das últimas duas décadas como os Liars, que deram início à carreira com uma sonoridade muito perto do noise rock e até com algumas doses de punk dance e aos poucos foram aproximando-se de uma sonoridade mais amena e introspetiva. O que antes era ruído, distorção e gritos desordenados, passou a debitar algo mais brando, com uma proposta de som muito mais voltada para um resultado atmosférico, no disco homónimo em dois mil e sete e em Sisterworld três anos depois, uma filosofia estilística ampliada por um toque ainda mais experimental em WIXIW (pronuncia-se wish you), cinco anos depois. Em dois mil e catorze, os Liars voltam a apostar numa inflexão sonora com Mess, um disco carregado de batidas, com uma base sonora bastante peculiar e climática e com propostas ora banhadas por um doce toque de psicadelia a preto e branco, ora consumidas por um teor ambiental denso e complexo e nos antecessores deste The Apple Drop, em TFCF (2017) e em Titles With The Word Fountain (2018) os primeiros em que Angus trabalhou a sós, o catálogo Liars foi projetado para uma nova escala e paradigma de inedetismo, que ganha agora laivos de absoluta excelência com este The Apple Drop, claramente o momento mais alto do catálogo do projeto e um dos momentos discográficos maiores de dois mil e vinte e um. Espero que aprecies a sugestão...
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