Nick Cave And Warren Ellis – Carnage

Primeiro longa duração de Nick Cave e Warren Ellis longe do conceito The Bad Sees e do formato banda sonora, Carnage é um impressionante e comovente testemunho desta dupla acerca da pandemia global que nos assola, a oferenda desinteressada de duas pessoas iguais a todas as outras que têm vivido, dia após dia, esta inesperada realidade covid, que nos deprime e apoquenta a todos, mas também tem gerado momentos de intensa criatividade em pessoas comuns e diversos artistas, mas poucos com bitola tão elevada como a que sustenta estas oito canções.


Nick Cave and Warren Ellis: Carnage review – the firebrand returns | Nick  Cave | The Guardian


Álbum que congrega o típico modus operandi das criações artísticas que este músico australiano nos foi apresentano nas últimas três décadas, nos mais variados formatos e rodeado de uma já vasta panóplia de parceiros, Carnage é, como seria de esperar, um álbum imbuído de uma farta espiritualidade, que atinge neste caso uma dimensão inédita, devido a uma profundidade que comove, instiga, questiona, e quase esclarece, porque contamina e alastra-se, tornando-se compreensível por todos aqueles que testemunham e sentem na pele tudo o que é aqui descrito, com ímpar grau de realismo, por exemplo, em Balcony Man, no ocaso do alinhamento. São oito canções, ampliadas por subtilezas instrumentais de raro requinte e intensidade e pela voz de Cave, mais grave e nasalada do que nunca e que parece não suspirar mas respirar ao nosso ouvido, com cruel nitidez e assombro. 


Se o início do registo, Hand of God ainda faz pairar no ouvinte, devido ao enlace curioso com uma inesperada mas subtil eletrónica, alguma dúvida relativamente ao ambiente sonoro do disco, a mesma fica logo desfeita nos temas seguintes, quando o piano se torna rei e senhor do arquétipo sonoro de composições que transpiram uma constante sensação de proximidade com o ouvinte, efeito ampliado por um modo de produção que procurou acentuar o tipicamente lo fi e a recriação realística de um delicioso voyeurismo caseiro. As próprias letras ajudam a este intimismo, já que além do omnipresente amor, elementos da natureza, como montanhas, cursos de água e árvores, abundam, juntamente com as já habituais referências à divindade e, amiúde, a uma hipotética incompreensão por parte de Deus relativamente ao sofrimento alheio.


Cada vez mais maduro e incisivo nas suas criações artísticas e com um braço direito que, ao contrário de tantos outros que teve, como o já falecido Roland S. Howard nos The Bad Seeds, o deixa manobrar livremente e o ampara nos devaneios e nas experimentações, Nick Cave oferece-nos neste Carnage um belo disco, principalmente no modo como inquieta e recria a sensação de desespero comum e contínuo que nos assola a todos, mas também na forma como nos oferece um indisfarçável sentido de esperança. Espero que aprecies a sugestão...


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