STRFKR – Future Past Life

Não é assim tão incomum quanto isso encontrar quem ache que os STRFKR de Josh Hodges são a maior banda de todos os tempos. De facto, esta banda norte-americana, natural de Portland, no Oregon, é mestre a transmitir boas vibrações e tem uma inclinação para a beleza que é, quanto a mim, inquestionável. É impressionante a sua capacidade de criar composições que oferecem êxtase às pistas de dança, mas também de proporcionar instantes sonoros contemplativos que, escutados, por exemplo, numa estufa de plantas, tornam-se no adubo ideal para as fazer crescer. Aliás, não será assim tão absurdo quanto isso, acreditar que aquela new wave de forte intensidade e que num misto de nostalgia e contemporaneidade, baliza o catálogo dos STRFKR, foi pensada por Hodges, o grande cérebro criativo do projeto, para o cultivo de sementes.


STRFKR - Terrorbird


Assim, alegremo-nos todos e acreditemos piamente que a paz será de novo restaurada nos vales, as vacas voltarão a ser felizes e as águas serão purificadas, porque os STRFKR acabam de nos garantir um futuro mais feliz com o lançamento de mais um disco, um alinhamento de dez canções intitulado, Future Past Life, o sucessor do fabuloso registo Being No One, Going Nowhere de dois mil e dezasseis e que foi sendo antecipado com uma série de singles nas últimas semanas.


Future Past Life mostra-nos os STRFKR a fazerem aquilo que sabem melhor, canções com elevada cosmicidade e lisergia e em que rock e eletrónica conjuram entre si com elevada mestria e bom gosto. Logo a abrir o registo, o esplendor solarengo e nostálgico de Dear Stranger dá-nos, no imediato, no efeito do sintetizador que plana pela melodia, na batida inebriante e nas guitarras repletas de fuzz, a possibilidade de obtermos um olhar bastante impressivo e esclarecedor acerca do processo criativo de Hodges, enquanto compositor, ele que é a grande força motriz da banda. A partir daí, desde instantes que são apenas e só pouco mais do que esparsos devaneios experimentais, mas muito bem sucedidos, como Palm Reader e Better Together, belíssimos exercícios de acusticidade lisérgica, até algumas composições em que o charme lo fi típico de uma produção crua e uma gravação arcaica se transformam em instantes de pura levitação, como é o caso da retro Second Hand, o que não falta neste alinhamento são temas notáveis e extremamente belos, impregnados, como é habitual nos STRFKR, com letras de forte cariz introspetivo, num resultado final algo hipnótico, muito também por causa do realismo da atmosfera que se cria, com os filmes de ficção e o espaço a aparecerem, mais uma vez, no perfil estilístico do trabalho, começando, desde logo, pelo artwork do mesmo.


Além dos temas acima referidos, há ainda que fazer menção de outros instantes do álbum que abrilhantam ainda mais o seu conteúdo e nos fazem querer que este é, sem dúvida, o grande disco de dois mil e vinte até ao momento. Never the Same, canção assente numa batida hipnótica, um delicioso efeito planante, cordas vibrantes e sintetizações cósmicas e que fala de um indivíduo com olhos castanhos iguais aos olhos da mãe de Hodges, Deep Dream, tema que resultou de um espetacular brainstorming entre Hodges e dois músicos holandeses, Mathias Janmat e David Hoogerheide, um devaneio psicadélico, com uma acentuda vibe setentista, em que diversas texturas orgânicas, orientadas por uma guitarra ecoante e sintéticas, conduzidas por uma sintetizador repleto de efeitos cósmicos se entrecruzam entre si e dividem o protagonismo no andamento melódico e estilístico da canção e Budapest, majestosa e vibrante composição, assente num efeito metálico da guitarra delicioso e que conta com a participação especial vocal dos também norte- americanos Shy Boys, dos irmãos Collin Rausch e Kyle Rausch, um coletivo de Kansas City, no Missouri, que deu um travo mais angelical e solarengo ao típico charme lo fi radiante dos STRFKR, são três bons exemplos do formidável modus operandi deste projeto, elevado em Future Past Life a um patamar ímpar de qualidade e visão, não só da suprema herança da pop das últimas quatro décadas, mas também daquilo que poderá ser o futuro próximo da melhor indie rock. Espero que aprecies a sugestão...


STRFKR - Future Past Life


01. Dear Stranger
02. Never The Same
03. Deep Dream
04. Second Hand
05. Better Together
06. Budapest (Feat. Shy Boys)
07. Palm Reader
08. Sea Foam
09. Pink Noise
10. Cold Comfort


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