Enquanto os míticos Super Furry Animals permanecem numa pausa mais ou menos indefinida, Gruffydd Maredudd Bowen Rhys, nascido em dezoito de julho de mil novecentos e setenta no País de Gales, continua a cimentar a sua bem sucedida carreira a solo com álbuns onde vai testando progressivamente novas fórmulas um pouco diferentes do rock alternativo com toques de psicadelia da banda de onde é originário. O seu mais recente exercício criativo é Pang!, o sexto registo de originais deste seu percurso a solo, iniciado há década e meia com Yr Atal Genhedlaeth, um disco divertido e cantado inteiramente no idioma galês. Dois anos depois, com Candylion, o músico atinge ainda maior notoriedade com esse projeto que a crítica descreveu como delicado e repleto de bons arranjos e onde se destacou também a participação especial do grupo de post rock Explosions in The Sky, além da produção impecável de Mario Caldato Jr, que já trabalhou com os Beastie Boys e os Planet Hemp, entre outros. Em dois mil e onze, com Hotel Shampoo, Gruff apostou em composições certinhas feitas a partir de uma instrumentação bastante cuidada, que exalava uma pop pura e descontraída por quase todos os poros. Três anos depois, em dois mil e catorze, o galês regressou com American Interior, a banda sonora de um filme onde Rhys era o ator principal e embarcava numa viagem musical pela América repetindo a aventura do explorador e seu antepassado, John Evans, no século dezoito. Já em dois mil e dezoito, Babelsberg ampliou até um superior nível qualitativo a visão incomum de Rhys relativamente aqueles que o músico considerava ser, há uns dezoito meses, os grandes eixos orientadores de uma pop alicerçada num salutar experimentalismo e onde não existem limites para a simbiose entre diferentes estilos musicais.

Com nove canções repletas de onomatopeias, produzidas pelo produtor Sul Africano Muzi, sendo grande parte delas cantadas em galês e com alguns trechos em zulu, Pang!, um disco que tem, curiosamente, nome inglês, proporciona ao ouvinte uma sequência bastante criativa de canções que sobrevivem essencialmente à custa de uma elevada luminosodade nas cordas, muitas vezes trespassadas quer por elementos percurssivos variados, quer por instrumentos de sopros, utilizados quase sempre para adornar melodicamente e para conferir a cada composição o seu cariz identitário, ajudando assim a cimentar o ecletismo do alinhamento.
Portanto, da psicadelia folk do tema homónimo, passando pela perene acusticidade de Eli Haul, pelo funk com travo a tropicalia de Bae Bae Bae, pela forte toada jazzística de Digidigol, pela solarenga Ara Deg (Ddaw’r Awen), a melhor composição do disco, e pelo piscar de olhos à melhor herança do índico em Taranau Mai e à do Adriático em Annedd Im Danedd, Pang! é um verdadeiro festim sonoro global, uma viagem à volta do mundo, mas também uma viagem no tempo, esta última algo atípica porque nunca deixa de haver um travo de contemporaneidade em toda a amálgama que é possível destrinçar canção após canção e que foi eficazmente idealizada e minuciosamente plasmada.
Disco coeso, dinâmico e de certo modo concetual, Pang! é um marco intenso e flamejante na trajetória individual deste músico, um disco que transporta um infinito catálogo de sons e díspares referências que parecem alinhar-se apenas na cabeça e nos inventos nada óbvios de Rhys. Espero que aprecies a sugestão...

01. Pang!
02. Bae Bae Bae
03. Digidigol
04. Ara Deg (Ddaw’r Awen)
05. Eli Haul
06. Niwl O Anwiredd
07. Taranau Mai
08. Ôl Bys / Nodau Clust
09. Annedd Im Danedd
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