Dois anos e meio depois do excelente Heal, o projeto Strand Of Oaks do norte americano Timothy Showalter, está de regresso com Hard Love, nove pulsantes temas produzidos por Nicolas Vernhes (The War on Drugs, Spoon) e que são mais uma fervorosa demonstração de saudável alienação por parte de um músico que, com quinze anos, no sotão de sua casa, se sentiu ausente do resto do mundo e percebeu que a música seria a sua cura e a composição sonora a alquimia que lhe permitiria exorcizar todos os seus medos, problemas e angústias.

Quase duas décadas depois dessa visão premonitória, Timothy é hoje uma espécie de reverendo que vagueia pela noite americana a pregar o evangelho segundo Neil Young ou Devendra Banhart, tendo sempre como permissa a busca de uma súmula de referências noise, folk e psicadélicas. Para isso, pega no piano, na viola elétrica e em sintetizadores cheios de efeitos e canta sobre tudo aquilo que o impeliu para o mundo da música, mas também sobre viagens sem destino, o amor, o desapego às coisas terrenas e a solidão.
O aparecimento de Devendra Banhart no começo da década passada teve uma importância única para o resgate das influências hippies bem como o fortalecimento de um som de oposição ao que propunham as guitarras típicas da cena indie norte americana, principalmente o que era construído em Brooklyn, Nova Iorque. Strand Of Oaks é mais um que arrisca, e neste caso com enorme sucesso, a mergulhar fundo na psicadelia folk que definiu a música dos anos sessenta, mas fá-lo apoiado num som montado em cima de um imenso cardápio sonoro e musical que, de mãos dadas com uma produção irrepreensível, nos proporciona muito do que de melhor propõe hoje a música independente americana contemporânea.
Neste Hard Love, Strand Of Oaks consegue ir do caraterístico punk rock feito com um baixo proeminente e guitarras simultaneamente sombrias e carregadas de distorção, como se escuta em Radio Kids ou, principalmente, na monumental e tenebrosa Everything, até a uma toada mais pop, que no piano e nos samples de Cry até comove e em Hard Love, o tema que abre de forma magnífica o disco, serve-se da tal guitarra, mas acompanhada por um sintetizador épico e sedutor, adornado por camadas sonoras ricas em detalhes implícitos, mas que nunca ofuscam o desejo de serem as cordas do guitarra, na primeira, e as teclas, na segunda, as pedras de toque para expor sentimentos com genuína entrega e sensibilidade extrema.
Hard Love tem uma atmosfera viciante e extrovertida, é um disco que se ouve de punhos cerrados com a convicção plena que tem conteúdo e que o mesmo, ao impelir-nos à reflexão interior, pode dar um pequeno contributo para que aconteça algo que faça o bem a nós próprios. É um disco que exala certeza e coerência nas opções sonoras que replica, um emaranhado de antigas nostalgias e novas tendências, que reproduzem toda a força neo hippie que preenche cada instante de um álbum tipicamente rock, mas que também se deixa consumir abertamente tanto pelo experimentalismo punk lisérgico como pela soul, referências que expandem os territórios deste artista verdadeiramente singular. A simbiose entre estes dois géneros possibilita que frequentemente se encontrem, como em On The Hill, canção que explora ambas as referências de igual forma e que prova uma feliz aproximação com todos os alicerces do cancioneiro indígena do último meio século, algo que também sucede, mas numa abordagem mais calorosa e próxima do universo de um Springsteen, na vibrante Rest Of It.
Hard Love é, em suma, um trabalho que do vintage ao contemporâneo consegue encantar-nos e fazer-nos imergir na intimidade de um Timothy irreverente mas também bucólico, através de uma viagem cheia de versos intimistas que flutuam livremente, um compêndio de várias narrativas onde convive uma miríade alargada de sentimentos que, da angústia à euforia, conseguem ajudar-nos a conhecer melhor a essência do autor. É um disco simultaneamente amplo e conciso sobre as experiências do músico, mas também sobre o presente, o isolamento, a melancolia e o cariz tantas vezes éfemero dos sentimentos, em suma, sobre a inquietação sentimental, o existencialismo e as perceções humanas, fecundadas numa espécie de penumbra sintética, onde a habitual riqueza instrumental da folk não foi descurada, mas com o rock no seu estado mais puro a ser também uma das forças motrizes que dá vida à pouco mais de meia hora que este disco dura. Espero que aprecies a nossa sugestão...

01. Hard Love
02. Radio Kids
03. Everything
04. Salt Brothers
05. On The Hill
06. Cry
07. Quit It
08. Rest Of It
09. Taking Acid And Talking To My Brother
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