Elbow – Little Fictions

Uma das bandas fundamentais do cenário indie das duas últimas décadas são, com toda a justiça, os britânicos Elbow de Guy Garvey, uma banda natural de uma pequena localidade inglesa chamada Salford e de regresso aos discos com Little Fictions, dez canções que acabam de ver a luz do dia à boleia da Polydor Records em parceria com a Concord Records. Este é o trabalho discográfico de um grupo honesto, coeso e com uma fleuma muito própria e sua, que busca no panorama internacional o mesmo reconhecimento que já tem, como projeto de topo, em terras de sua majestade.


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Donos de um som épico, eloquente e que exige dedicação, os Elbow chegam a Little Fictions a verbalizar sonoramente uma necessidade quase biológica de nos elucidar como enfrentar a habitual ressaca emocional que os normais eventos de uma vida em sociedade nos dias de hoje provocam no equilíbrio emocional de qualquer mortal, razão pela qual são um daqueles grupos com os quais tanta gente acaba por se identificar, principalmente quem, de modo mais ou menos devoto, vai procurando destrinçar a escrita apurada de Garvey e que no antecessor, The Take Off And Landing Of Everything, editado na primavera de 2014, atingiu contornos particularmente intimistas, por ser ter debruçado na separação, à altura, do músico com a escritora Emma Jane Unsworth.


Cada vez mais maduro e sempre a fazer questão de ser profundo e poético na hora de cantar a vida, mesmo que ela tenha menos altos que baixos, como quem precisa de viver um período menos positivo e de quebrar para voltar a unir, este quinteto mantem a sonoridade elaborada que o carateriza, mas tem aqui talvez o momento mais alto da sua carreira depois do maravilhoso The Seldom Seen Kid (2008). Na verdade, os Elbow acertaram novamente e criaram mais um disco bonito e emotivo, cheio de sentimentos que refletem não só os ditos desabafos de Garvey, mas também a forma como ele entende o mundo hoje e as rápidas mudanças que sucedem, onde parece não haver tempo para cada um de nós parar e refletir um pouco sobre o seu momento e o que pode alterar, procurar, ou lutar por, para ser um pouco mais feliz. Canções como a optimista e orquestral Magnificient (She Says), a luminosidade intimista e charmosa de Gentle Storm, a cândura arrebatadora que transborda da emotiva All Disco ou a sedutora reflexão acerca de um adeus que nunca termina, plasmada em K2constituem a banda sonora ideal para essa paragem momentânea, que para todos nós deveria ser obrigatória e que pode muito bem servir-se de Little Fictions, deixando-o ali a tocar, a meio volume e em pano de fundo.


Sempre encantadores, aditivos e simultaneamente amplos e grandiosos e detalhados e impressivos no modo como falam e cantam sobre o amor, no fundo a grande força motriz de toda a pafernália de sensações e acontecimentos que fui descrevendo até aqui, os Elbow provam em Little Fictions que estão num elevado e excitante momento criativo e intactos e genuínos a expôr-se e a desarmar-nos. Afirmo-o convictamente porque este disco tem alguns momentos que, sendo devidamente absorvidos, não deixarão de nos provocar aquelas reações físicas que muitas vezes tentamos refrear, porque há quem considere que a cena dos sentimentalismos, do sorriso sem razão aparente e das lágrimas felizes ou infelizes (e aqui há as duas possibilidades) é só para os fracos de coração e de espírito. Quanto a mim, o verdadeiro e o mais recompensador é exatamente o contrário e aqueles que se expôem assim, é que são os fortes... E a música dos Elbow, disco após disco, tem-me ajudado a perceber nas últimas duas décadas como cimentar e vivenciar esta minha certeza, da qual não me envergonho minimamente. Espero que aprecies a sugestão...


Elbow - Little Fictions


01. Magnificent (She Says)
02. Gentle Storm
03. Trust The Sun
04. All Disco
05. Head For Supplies
06. Firebrand And Angel
07. K2
08. Montparnasse
09. Little Fictions
10. Kindling


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