Cerca de dois anos após o excelente O Shudder, os britânicos Dutch Uncles estão de regresso aos discos com Big Balloon e novamente sob a chancela da insuspeita Memphis Industries, Falo de um registo discográfico intenso, charmoso e e efusivo, incubado por este quarteto sedeado em Marple e atualmente formado por Duncan Wallis, Andy Proudfoot, Robin Richards e Peter Broadhead e que é já o quinto álbum da carreira de um projeto que deu o ponto de partida em 2009 com um homónimo editado pela Tapete Records e que com Cadenza e Out Of Touch In The Wild, conseguiu começar a ser olhado pela crítica com particular devoção, sendo ainda hoje um dos melhores segredos do universo sonoro indie e alternativo.
Ainda mais inebriantes, musculados e seguros do que aquilo que mostraram em O Shudder, neste Big Balloon os Dutch Uncles mostram porque chegaram a um ponto da carreira em que não era mais possível abrigarem-se apenas à sombra de uma certa penumbra e de um limitado nicho de fiéis seguidores. Aceitaram essa fatalidade sem receios e arregaçaram as mangas de modo a compôr canções que pudessem, com mérito próprio, extravasar as anteriores fronteiras e assim atingirem, finalmente, uma projeção superior e universal. Logo na guitarra serpenteante que conduz o tema homónimo essa permissa fica expressa de modo indelével e com o fulgor pop oitocentista de Baskin' é ainda mais vincada, com o disco a não defraudar, logo à partida, quem, como eu, estava à espera de uma proposta sonora ambiciosa e sofisticada, criada por uns Dutch Uncles que sempre souberam provar conhecer os melhores atalhos para aprimorar uma queda acentuada para a vertente experimental, mas sem descurar a oferta de canções acessíveis à maioria dos ouvidos, com o período aúreo da pop europeia de final do século passado em ponto de mira.
O piano de Combo Box acaba por ser mais uma acha preciosa para a fogueira de esplendor e sofisticação que define a filosofia sonora dos Dutch Uncles, assim como o efeito sintetizado de Hiccup ou a linha melódica que introduz a epicidade visceral de Streetlight, três dos melhores momentos de Big Balloon e que comprovam que nem só das cordas vive este quarteto, mas também das teclas que, quer num campo orgânico ou com um perfil mais sintético, são também um ingrediente primordial para o grupo. Já em Oh Yeah, se o sintetizador também assume a batuta, a bateria chama para si os holofotes no modo como define o andamento da canção e a alma e a alegria que dela transborda. Depois, em Sink, apesar da distorção da guitarra ser esplendorosa, a bateria ganha de novo relevo pelo modo como se abriga claramente na herança da synthpop típica dos anos oitenta, que, como se percebe, e já referi, está fortemente representada na vertente instrumental, mas também no próprio clima vocal. O registo vocal em falsete de Duncan, algo emotivo,que ajuda à aproximação entre a banda e o ouvinte, ao mesmo tempo que confere a densidade correta às letras, ajudando a que o conjunto final de muitas canções tenha vida e um pulsar que não nos passa despercebido, vai de encontro à habitual estética dos Dutch Uncles que têm abraçado, também através da voz, a simbiose entre pop vintage e contemporânea e ajudado imenso ao seu enriquecimento, pelo modo inédito como olham para o passado sem se deixarem seduzir demasiado por ele.
Disco com uma sonoridade muito particular e com um balanço temporal equilibrado que apresenta uma mescla de referências que ganham vida de mãos dadas com a ponte entre o presente e o passado, quer pelo modo curioso como a voz é reproduzida, mas também pela disposição das cordas e das teclas nas melodias e o uso do reverb, Big Balloon abre-se de par em par como uma enorme janela de luz, cimentando a firmeza sonora identitária dos Dutch Uncles, que atingem com estas dez canções o momento mais alto da sua já respeitável carreira. Espero que aprecies a sugestão...

01. Big Balloon
02. Baskin’
03. Combo Box
04. Same Plane Dream
05. Achameleon
06. Hiccup
07. Streetlight
08. Oh Yeah
09. Sink
10. Overton
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