Depois da parceria com os Wavves de Nathan Williams no disco a meias No Life For Me (2015), os Cloud Nothings de Dylan Baldi, estão de regresso aos lançamentos discográficos com Life Without Sound, nove canções impregnadas com um excelente indie rock lo fi, abrigadas pela insuspeita Carpark Records e um regalo para os ouvidos de todos aqueles que, como eu, seguem com particular devoção este subgénero do indie rock. Este disco foi produzido por John Goodmanson e gravado em El Paso, no Texas.
Trabalho que, na sua génese, é feito de experimentações sujas que procuram conciliar uma componente lo fi com a surf music e o garage rock, numa embalagem caseira e íntima e que não coloque em causa o adn sonoro identitário dos Cloud Nothings, Life Without Sound mostra-se logo à partida, em Up To The Surface, um compêndio onde pujança, crueza e até uma certa monumentalidade caminham de mãos dadas, nas asas de guitarras plenas de momentos melódicos mas também de pura distorção, vozes muitas vezes quase inaudíveis e uma bateria que não receia plasmar, em simultâneo, raiva e quietude, no fundo alguns dos atributos essenciais para a definição justa do tal adn deste grupo e que, nesta nova etapa, atinge um patamar superior de maturidade.
Se aquela jovialidade a tresandar a acne está ainda muito presente no riff de Things Are Right With You e se Darkened Rings está impregnada de loopings e parece querer a todo o instante resvalar para uma ruidosa inconsistência que só costuma ver o ocaso num conveniente fade out, já o dedilhar emotivo de forte odor grunge de Enter Entirely ou o clima pop de Modern Act, canção com um excelente refrão e com os arranjos distribuídos em camadas, que fazem deste tema um momento intenso e obrigatório no disco, provam o modo como estes Cloud Nothings se mostram mais maduros, criativos, incisivos no modo como apresentam o som que deles transborda e crentes das suas capacidades compositórias. Depois, terminar o alinhamento de Life Without Sound de modo quase inesperado, com o enraivecido negrume punk blues algo progressivo de Realize My Fate, acaba por ser a cereja no topo do bolo de um álbum trabalho arrojado e que, apesar do constante noise das guitarras, nunca deixa de conter, até no ocaso, uma sonoridade aberta, acessível e pop.
Álbum, na minha opinião, importante e significativo no modo como reinventa um subgénero do rock alternativo que ultimamente apenas nomes como os conterâneos Ty Segall, Wavves ou The Oh Sees, por um lado e os Deerhunter, por outro, têm sabido defender com mestria, Life Without Sound é um passo nobre e bem sucedido no histórico de uma banda que, sem deixar de ser rugosa, intensa e visceral, procura um brilho mais acessivel e imediato e uma abordagem ao noise mais elástica, orelhuda, angulosa e até radiofónica. Espero que aprecies a sugestão...

01. Up To The Surface
02. Things Are Right With You
03. Internal World
04. Darkened Rings
05. Enter Entirely
06. Modern Act
07. Sight Unseen
08. Strange Year
09. Realize My Fate
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