Pedro Zina (baixo), Ricardo Mendes (bateria) e Gonçalo Formiga (guitarra e voz) são os Cave Story, uma banda nascida nas Caldas da Rainha em 2013 e que deu o pontapé de saída numa carreira promissora com um conjunto de demos que chamou a atenção de vários promotores e festivais nacionais e internacionais como a FatCat Records e o Reverence Valada, respetivamente. Tendo visto a luz do dia no início de 2015, Spider Tracks foi o primeiro EP dos Cave Story, seis canções gravadas durante um ano e que ganharam vida descritas dentro dos abrangentes limites definidos por um post punk pop experimental, tendo-se seguido depois Garden Exit, um novo tomo de canções do trio, que solidificou e tipificou o som de um projeto sempre aberto e pronto para novas sonoridades, mas que confessa sentir-se mais confortável a explorar os recantos mais obscuros de uma relação que se deseja que não seja sempre pacífica entre a mágica tríade instrumental que compôe o arsenal de grande parte dos projetos inseridos nesta miríade sonora.
Agora, no ocaso de outubro, chegou aos escaparates West, o longa duração de estreia dos Cave Story, doze canções que são a concretização plena desta desenvoltura rockeira, o epílogo do promissor percurso acima descrito e que confirma estarmos na presença de um nome essencial das várias lebres de uma nova geração de bandas nacionais que redescobriram, à chegada do novo século, o velho fulgor anguloso e elétrico do rock’n’roll.
Gravado nas Caldas da Rainha pela própria banda (excepto os temas Body Of Work, gravado nos estúdios Valentim de Carvalho em Lisboa com Luís Caldeira, e Like Predicted, gravado nos estúdios Sá da Bandeira no Porto por João Brandão), West ganhou vida em formato cd pela Lovers & Lollypops e em vinil pelo Musicbox e leva-nos numa viagem que espelha fielmente o gosto que os Cave Story demonstram relativamente aos primórdios do rock, conseguindo apresentar, em simultâneo, algo inovador e diferente.
O álbum começa a rolar e a distorção da guitarra de Body Of Work dá-nos, só para começar, aquele travo fresco e luminoso, mas apimentado por um manto de fundo lo fi empoeirado, rugoso mas pleno de soul. É uma guitarra vintage, exemplarmente acompanhada por uma secção ritmíca vigorosa e assertiva, num resultado que pouco depois, em Modeller, recua esse instrumento quase meio século até à génese dos The Rolling Stones e à irremediável crueza dos The Kinks. Logo depois, quando no rock de American Nights existe aquele travo indisfarçável que encontra raízes no cenário punk setentista britânico e quando esse mesmo punk, mas o nova iorquino, dominado já na alvorada deste século pelos The Strokes, ganha vida em Darkness Is A Figure e na opulência de Trying Not to Try, o mapa sonoro que define o disco amplia-se ainda mais. A seguir, com o experimentalismo psicadélico setentista, algures entre Sparks e The Television, que orienta Microcosmos e com a guitarra de Like Predicted a conter aquel travo folk sulista que os R.E.M. no início dos anos oitenta adotaram para pedra basilar da sua cartilha, sem descurar a aparição do grunge em Running With Baguettes, percebe-se a elevada abrangência de West e porque este trio deve ser já, a nivel interno, considerado vanguardista e um exemplo a seguir, em plena segunda década do século XXI, devido ao modo como consegue acompanhar os pressupostos que sustentam que o indie rock lo fi e de cariz mais psicotrópico está na ordem do dia.
Ensaio de assimilação de heranças, como se da soma que faz o seu alinhamento nascesse um mapa genético que define o universo que motiva esta banda da costa oeste, West conquista e seduz, com as suas visões de uma pop caleidoscópia e o seu sentido de liberdade e prazer juvenil e suficientemente atual, exatamente por experimentar tantas referências antigas. Espero que aprecies a sugestão...
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