Tema que, de acordo com o baixista Charles Cave, é inspirado em comentários com trechos bíblicos colocados por um indivíduo no instagram, Take It Out On Me foi o primeiro avanço divulgado pelos britânicos White Lies para Friends, o novo registo de originais do trio, que viu a luz do dia a sete de outubro e uma canção certamente escolhido a dedo para entreabrir ao mundo um alinhamento de dez canções que têm a amizade como tema central e que firmam o grupo num lugar de destaque no universo sonoro ocupado pelo revivalismo do post punk e do indie rock. Além de Charles Cave, fazem parte dos White Lies Harry McVeigh e Jack Lawrence-Brown. Este grupo inglês de rock alternativo mantinha-se na penumbra desde 2013, quando apresentaram Big TV, um álbum conceptual que, através de um suposto ecrã mágico, teorizava sobre a nova vida de um casal que se mudava para uma grande cidade. Ess trabalho sucedeu a Ritual, álbum de 2011, tendo a estreia dos White Lies ocorrido em 2009 com o aclamado To Lose My Life.

Gravado no estúdio de Bryan Ferry, em Londres, Friends impressiona pela exuberância melódica e por um vigor que traz diversos timbres de sintetizador que depois se entrelaçam com as guitarras e com uma bateria pulsante, não só no tema já referido e que abre o disco, mas também no modo como o baixo e a batida de Morning In LA se cruzam com um riff e um flash sintetizado ou, numa outra perspetiva, na alegoria pop oitocentista feita de imponência e de uma elevada dose de sentimentalismo em Is My Love Enough e Right Place, esta última uma enternecedora balada, capaz de arrebatar um estádio inteiro ou o coração mais escondido, lá no canto mais aconchegante do seu quarto. Estes são apenas alguns exemplos de uma receita que assenta em melodias simples mas aditivas, enriquecidas com vozes vigorosas cantadas com o habitual registo grave mas luminoso e que dá vida a letras que muitas vezes se socorrem da mesma métrica nas diferentes músicas.
Há em Friends e relativamente aos álbuns anteriores, algumas nuances que dão ao disco um cunho identitário muito próprio e que representam novos dados relativamente à sonoridade dos White Lies. Além do belíssimo e algo inedito piano de Don't Fall, este álbum aposta claramente num maior equilibrio entre os sintetizadores e teclados com timbres variados e o pulsar das guitarras, talvez em busca de uma toada que não olha apenas para o óbvio comercial mais radiofónico, mas também para uma acolhedora face menos sombria e mais melancólica, algures entre U2 e Depeche Mode. Um bom exemplo disso é Come On, um tema que traz diversos timbres de sintetizador que depois se entrelaçam com as guitarras e com uma bateria pulsante, quase de modo impercetível.
Sonoramente cada vez mais teatrais e até dramáticos, o que potencia, para o bem e para o mal, o seu estatuto, os White Lies dão ao mundo mais dez canções amplamente influenciadas por uma sonoridade já transversal a várias décadas, mas criam as suas próprias personagens que procuram resgatar algo de novo no post punk. Cada um destes temas não tem receio em se desdobrar num permanente conflito entre o vintage e o contemporâneo e mesmo tão embrenhado num som que já se firmou há trinta anos, Friends tem um refinamento muito próprio e bastante atual. Espero que aprecies a sugestão...
01. Take It Out On Me
02. Morning In LA
03. Hold Back Your Love
04. Don’t Want To Feel It All
05. Is My Love Enough
06. Summer Didn’t Change A Thing
07. Swing
08. Come On
09. Right Place
10. Don’t Fall

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