Terrakota - Oxalá

Já chegou aos escaparates Oxalá, o novo registo de originais dos Terrakota, um coletivo sedeado na capital do antigo império, mas de setas apontadas para os quatro cantos de um planeta cada vez mais pequeno e global e culturalmente e etnicamente díspar. E se em pleno arranque do século XXI esta realidade apresenta-se como um facto incontornável, tal deve-se, sem sombra de dúvida, à coragem e à perseverança de um pequeno povo que há alguns séculos sulcou novos mares e descobriu outras culturas, saberes e tradições, que estes Terrakota plasmam, com notável vibração e autenticidade, neste Oxalá.


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Gravado nos estúdios dos próprios Terrakota e nos estúdios GroundZero e TooLate, Oxalá é uma edição completamente independente e conta com as participações de Vitorino, Mahesh Vinayakram, Selma Uamusse, Anastácia Carvalho e Florian Doucet entre outros. Este novo capítulo da discografia dos Terrakota tem como ponto de partida Lisboa, faz um pequeno e curioso desvio pelo coração do Alentejo na introdução do tema homónimo e depois, assume-se como ponto de chegada de muitas porções de um mundo onde é possível sentir, sonoramente, diferentes cheiros e sabores, enquanto se aprecia composições de diferentes cores, intensidades e balanços, que desafiam e apuram todos os nossos sentidos.


Saboreando poemas escritos em português, inglês e francês, Oxalá coloca-nos à prova à medida que diante de nós escorre aquilo que o género humano tem de mais genuíno e seu e disserta sobre o modo como diferentes territórios e porções de um planeta que foi beijado um dia pelo intrépido português, faculta uma heterogeneidade de sensações e obrigou aos nativos a diferentes processos adaptativos, o que resultou numa multiplicidade de raças, experiências e estádios de desenvolvimento que hoje caraterizam a nossa cultura e a nossa essência.


Não é assim tão ousado afirmar que a música dos Terrakota é um exercício antropológico, com tudo aquilo que de interessante e revelador tem, forçosamente, um documento sonoro que permite tal desiderato. Sendo o artwork do disco, da autoria de Alexandre Louza, logo à partida, revelador das reais intenções deste coletivo, é no gira giro do mundo que a humanidade se desvenda, como se pode escutar no tema que abre Oxalá, mas também na distância que separa a vibração do violão da cadência das congas e do treme terra em Entre O Céu E A Terra. E se enquanto passamos dessa Gira Giro a Jah Flow viajamos, num ápice, da Índia à Jamaica, já em Mexe Mexe e Bankster é numa ruela lamacenta mas cheia de cor de Luanda ou da Praia que aterramos, mesmo no ventre daquela África que tanto nos ofereceu ao longo de seis séculos de intercâmbios e histórias nem sempre pacíficas, mas ainda hoje marcantes e impressas num povo que vivendo à beira mar plantado deve ao continente negro, como referi acima, uma elevada quota parte do seu adn atual.


Disco feito demanda e oferenda de diferentes cheiros e emoções e, conforme se percebe em Entre o Céu E A Terra, um trabalho que também serve para nos explicitar como esta evolução tem um lado negro e nefasto, nele os Terrakota, como banda de intervenção que são, assumidamente, querem-nos fazer refletir nesse sofisma, algo audível, por exemplo, nesse tema quando se escuta Já Veio Expulso da Índia! Lá teve falha o seu plano. Depois de ir minar o Brasil, foi pegar o Jamaicano. Oxalá abre, por todas estas e tantas outras boas razões, um novo capítulo da vida de uns Terrakota renovados e com uma abrangência sonora ímpar no panorama musical nacional. Espero que aprecies a sugestão...


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